Uma
noite fria vinha, e com ela uma vontade imensa de chegar em casa e abraçar a
minha família. Minha esposa, neste horário, já deveria estar preparando a
janta, e o nosso bebê, com certeza, dormindo em seu berço adornando de
brinquedos. Antes da chuva me prender em algum canto da rua, corri feito um
louco, pulando as poças de água que já se formavam nas ruas esburacadas. Então
cheguei em casa. Estava tudo como eu supus. Minha esposa na cozinha, com o seu
avental, o cheiro da comida se emanando, o nosso bebê, deitado no berço, com
aquele cheirinho de criança enfeitiçando o meu nariz. “Tudo bem, amor?” disse
eu a ela. Ela meneou a cabeça, sem dizer palavra. Então a abracei e em seus
olhos, uma lágrima escorreu. “Está tudo bem”, disse eu. “Sempre estará”. Seu
choro se amenizou, então fui até o quarto de nosso bebê. Por minha sorte, ele
acabara de acordar. Ergui em meu peito, e cantei uma canção de ninar,
apaziguando o seu sublime choro. Seu choro cessou, e então, pela primeira vez,
ele abriu os seus olhos e sorriu para mim. Não contive minha emoção; chorei.
Chorei muito. Minha esposa surgiu na porta e, com um semblante de saudade,
disse: “Está pronto?”. Eu esperava uma afirmação de que o almoço já estava na
mesa, e não uma pergunta. “Se estou pronto?”, perguntei. “Sim”, disse-me ela.
“Estou”, respondi. Foi então que ela aos poucos foi desaparecendo, sumindo da
minha vista. Meu filho, que estava em meus braços, também ia sumindo, e eu,
desesperado, me perguntava por que aquilo. Fechei meus olhos e não os vi mais.
O quarto do meu bebê não passava de um quarto abandonado, onde se jogava
entulhos como roupa velha e móveis inutilizados. Estremeci. O que estava
acontecendo? Fui até a cozinha, e encontrei apenas moscas na mesa. O meu
desespero só se agravava. Só depois que me debrucei no sofá e dei o meu último
gole no uísque, foi que me veio a triste lembrança de que o meu filho nem
sequer havia nascido, pois morreu no ventre da minha esposa, naquele maldito
dia em que viramos o carro por meu excesso de embriaguez.
Por Patrick Santos
