quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Remorso



Uma noite fria vinha, e com ela uma vontade imensa de chegar em casa e abraçar a minha família. Minha esposa, neste horário, já deveria estar preparando a janta, e o nosso bebê, com certeza, dormindo em seu berço adornando de brinquedos. Antes da chuva me prender em algum canto da rua, corri feito um louco, pulando as poças de água que já se formavam nas ruas esburacadas. Então cheguei em casa. Estava tudo como eu supus. Minha esposa na cozinha, com o seu avental, o cheiro da comida se emanando, o nosso bebê, deitado no berço, com aquele cheirinho de criança enfeitiçando o meu nariz. “Tudo bem, amor?” disse eu a ela. Ela meneou a cabeça, sem dizer palavra. Então a abracei e em seus olhos, uma lágrima escorreu. “Está tudo bem”, disse eu. “Sempre estará”. Seu choro se amenizou, então fui até o quarto de nosso bebê. Por minha sorte, ele acabara de acordar. Ergui em meu peito, e cantei uma canção de ninar, apaziguando o seu sublime choro. Seu choro cessou, e então, pela primeira vez, ele abriu os seus olhos e sorriu para mim. Não contive minha emoção; chorei. Chorei muito. Minha esposa surgiu na porta e, com um semblante de saudade, disse: “Está pronto?”. Eu esperava uma afirmação de que o almoço já estava na mesa, e não uma pergunta. “Se estou pronto?”, perguntei. “Sim”, disse-me ela. “Estou”, respondi. Foi então que ela aos poucos foi desaparecendo, sumindo da minha vista. Meu filho, que estava em meus braços, também ia sumindo, e eu, desesperado, me perguntava por que aquilo. Fechei meus olhos e não os vi mais. O quarto do meu bebê não passava de um quarto abandonado, onde se jogava entulhos como roupa velha e móveis inutilizados. Estremeci. O que estava acontecendo? Fui até a cozinha, e encontrei apenas moscas na mesa. O meu desespero só se agravava. Só depois que me debrucei no sofá e dei o meu último gole no uísque, foi que me veio a triste lembrança de que o meu filho nem sequer havia nascido, pois morreu no ventre da minha esposa, naquele maldito dia em que viramos o carro por meu excesso de embriaguez.

Por Patrick Santos