quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Remorso



Uma noite fria vinha, e com ela uma vontade imensa de chegar em casa e abraçar a minha família. Minha esposa, neste horário, já deveria estar preparando a janta, e o nosso bebê, com certeza, dormindo em seu berço adornando de brinquedos. Antes da chuva me prender em algum canto da rua, corri feito um louco, pulando as poças de água que já se formavam nas ruas esburacadas. Então cheguei em casa. Estava tudo como eu supus. Minha esposa na cozinha, com o seu avental, o cheiro da comida se emanando, o nosso bebê, deitado no berço, com aquele cheirinho de criança enfeitiçando o meu nariz. “Tudo bem, amor?” disse eu a ela. Ela meneou a cabeça, sem dizer palavra. Então a abracei e em seus olhos, uma lágrima escorreu. “Está tudo bem”, disse eu. “Sempre estará”. Seu choro se amenizou, então fui até o quarto de nosso bebê. Por minha sorte, ele acabara de acordar. Ergui em meu peito, e cantei uma canção de ninar, apaziguando o seu sublime choro. Seu choro cessou, e então, pela primeira vez, ele abriu os seus olhos e sorriu para mim. Não contive minha emoção; chorei. Chorei muito. Minha esposa surgiu na porta e, com um semblante de saudade, disse: “Está pronto?”. Eu esperava uma afirmação de que o almoço já estava na mesa, e não uma pergunta. “Se estou pronto?”, perguntei. “Sim”, disse-me ela. “Estou”, respondi. Foi então que ela aos poucos foi desaparecendo, sumindo da minha vista. Meu filho, que estava em meus braços, também ia sumindo, e eu, desesperado, me perguntava por que aquilo. Fechei meus olhos e não os vi mais. O quarto do meu bebê não passava de um quarto abandonado, onde se jogava entulhos como roupa velha e móveis inutilizados. Estremeci. O que estava acontecendo? Fui até a cozinha, e encontrei apenas moscas na mesa. O meu desespero só se agravava. Só depois que me debrucei no sofá e dei o meu último gole no uísque, foi que me veio a triste lembrança de que o meu filho nem sequer havia nascido, pois morreu no ventre da minha esposa, naquele maldito dia em que viramos o carro por meu excesso de embriaguez.

Por Patrick Santos 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Doentio caso dos irmãos disformes




- Esta intimação deverá ser entregue neste endereço... – Disse um cidadão de bigode espesso e hálito forte de tabaco e café. 
Os dois policiais, Ulisses e Gabriel, se dirigiriam então ao endereço dado pela a sua chefia. Um endereço que o experiente policial Ulisses pegou com relutância. Ulisses era um daqueles caras que sempre evitava ameaças, riscos, lugares inescrupulosos. Para você ter uma ideia, em seus vinte e poucos anos de profissão, Ulisses nunca sacou a sua arma, e, obviamente, nunca atirou em ninguém. Conhecia a má reputação daquele endereço e sempre evitava passar por lá. Casos bizarros eram ditos por populares, tanto transeuntes como próprios moradores da área. Seres estranhos rodeavam a extensa viela de aproximadamente duzentos metros. Os mais supersticiosos diziam que os seres eram criaturas de outro mundo. Seres completamente estranhos e macabros. Possuíam os olhos ardentes como uma chama e suas cabeças eram idênticas a óvnis. Já os sensatos diziam que eram apenas sádicos e estupradores; possuidores de máscaras, que o que a viela precisava era de uma ronda diária de guarnição policial.
Ulisses contava tudo aquilo, com receio ao jovem Gabriel, novato e sedento a ação.
- O que na verdade você teme, Ulisses? – Perguntou o policial Gabriel.
- Pode ser um conto popular – Disse Ulisses conduzindo a viatura policial e se dirigindo ao local ordenado pelo o chefe. – mas as mortes são verdadeiras. Tenho uma tia que mora naquela viela, cara. E ela afirma já ter visto várias vezes dois seres, um com a cabeça de porco e outro com feição de sapo, rondarem as ruazinhas de madrugada, provavelmente procurando vítimas.
- Ora essa. – Disse Gabriel. – Quantos anos têm a sua tia?
- Isso é irrelevante dizer. O que é mais importante neste momento, meu caro, é que vamos bater na casa onde estes dois seres foram vistos, pois aconteceu mais um crime na viela na noite passada e vítimas afirmam dizer severamente que estes dois anormais vieram de lá.
- Bom, mas quem mora na casa?
- Um idoso ranzinza demasiado misantropo. Dizem ser o mais antigo vizinho do beco. Depois que sua mulher e seu filho faleceram, de tuberculose, o velho se enclausurou com a sua filha mais nova em sua casa de uma tal forma, que poucos o viam. Anos mais tarde, foi á vez de sua filha, na época com vinte e cinco anos, vir a morrer.  A solidão esmiúça até mesmo um eremita, meu caro. Apelamos até para a maldade para não ficarmos só.
- O que você quer dizer com isto Ulisses? – Disse o jovem policial mostrando interesse pela a conversa.
- Nada, meu caro. Eu só quero minha aposentadoria, nada mais que isso. Só me faltam dois meses.
- Fale-me. Você tem algo em mente. Compartilhe.
- Não é nada. Só posso lhe afirmar que não estamos sozinhos nesta terra. – O jovem policial franziu o sobrolho bastante admirado. – Você, se estuda um pouco a antiguidade, há de convir que os homens adoravam seres completamente esdrúxulos, principalmente os egípcios. As esculturas em pedras são uma prova disso, bem como as artes desenhadas em grandes rochas. Lá podemos ver vários seres com um formato diferente. Homens com cabeça de lobo, metade homem metade cavalo. Enfim, várias deformações, e os homens os tratavam como deuses. Sim, Gabriel; aquele velho doente adora essas imagens e, de alguma forma, lhes deu vida.
 Gabriel lhe olhou de soslaio, muito desconfiado, e disse:
- Bela historia, Ulisses. Você quase me convenceu.
- Não seja sarcástico.
- Não estou sendo, amigo. Você realmente precisa se aposentar. – Disse o jovem sorrindo.
- Bom, é aqui. – Disse Ulisses parando o carro.
Os dois desceram e bateram na casa do senil idoso.
Não foram recepcionados. “Era de se prever”, disse Ulisses.
- Senhor, temos ordem de entrar em sua residência nem que seja a força. Por favor, colabore.
Quando os dois se programavam para derrubar aquela porta, ela se abriu lentamente causando um ruído agonizante. Os dois entraram cautelosamente. Ulisses mantinha sua arma em sua cintura, já o jovem Gabriel já havia sacado a sua.
- Guarde isso, seu imbecil. – Disse Ulisses furiosamente.
- Senhor, podemos conversar? – Disse Ulisses alterando a voz.
Mais uma porta se abriu, dessa a vez do segundo andar da casa. Os dois subiram e, enfim, encontraram o velho sentado em uma cadeira de rodas e em avançado estado de decrepitude. Uma luz fraca iluminava malmente o quarto lúgubre.
- Entrem. – Disse este.
Continuou...
- Queiram me desculpar por não ter ido lhes recepcionar, é que realmente não houve tempo suficiente. Porém lhes respondi. Ouviram-me?
- Não senhor! – Disse Gabriel.
- A minha voz já não é mais como antes! Mas digam-me, que privilégio de visita é esta, podem me dizer?
- Senhor, o senhor mora só? – Perguntou Ulisses.
- Praticamente.
- Ok, senhor. Tente colaborar com a gente. Na noite passada ocorreu um crime hediondo perto de sua localidade. Um homem teve a sua cabeça devorada. Peritos alegaram que a sua cabeça foi degolada por dentes. Um enorme animal o devorou.
- Bom, mas o que eu tenho a ver com isso, meu jovem? Você está me assustando.
- Testemunhas alegaram veementemente que o animal pulou o muro de seu quintal, e que logo depois sumiu.
- Meu quintal é sempre alvo de peraltas, senhor.
- Sei, senhor, mas acontece que não é a primeira vez que eles pulam para o seu quintal. Os vizinhos acreditam que o senhor lhes dá moradia. Ter animais nocivos é crime.
Os olhos do velho se ruborizaram e suas veias pareciam que iam espocar.
- Como ousa chama-los de animais, seu imundo! Lave a boca para falar de meus filhos.
- O QUÊ?
O ser de feição de sapo, então, surgiu e soltou uma gosma verde de sua boca em cima do jovem Gabriel que aos poucos foi se derretendo. Aquela gosma ácida aguou o pobre rapaz. Ulisses ficou petrificado com a cena. Surgiu, então, o seu irmão com a sua feição de porco.
- Suponho que esteja muito admirado, né soldado! Sim, com certeza. Ah, aquela vadia. Não era para ter terminado assim. Juro para você que não. Uma mãe jamais deve negar o seu filho, independente de como seja, concorda comigo soldado? – Ulisses meneou sua cabeça. – O primeiro a sair foi o Jimme, que o chamam diabolicamente de feição de porco. Depois veio o Jenny, o feição de sapo. Eu mesmo fiz o parto. Quando ela os viu, a maldita gritou como uma louca: “MONSTROS, MONSTROS, SÃO TODOS MONSTROS”. As crianças apenas choravam. Como pode uma mãe odiar um filho do modo como odiou! Com a mesma navalha que usei para tirar meus meninos daquela bruxa, enfiei no pescoço dela fazendo espirrar sangue sujo nos meus bebês. Ela serviu de alimento para eles. Em vez de leite, ela lhes deu sangue. Muito sangue. E até hoje eles adoram o sangue.
- De quem você está falando? – Perguntou Ulisses, agoniado.
- De minha filha, soldadinho.
 Ulisses, que nunca havia sacado a sua arma antes, desferiu apenas um tiro no coração do velho lúcido.

As crianças, de fruto incestuoso, choravam pela a morte do amado e diabólico pai. Ulisses não teve coragem de atirar nas crianças. Pareciam indefesas lamentando a morte do pai satânico.

Dívida com a Morte



Meu tio, um cara solteiro, estudante de advocacia, e que sempre foi bastante extrovertido, chegou numa noite em sua casa, que ficava nos fundos da nossa, bastante nervoso, e, neste dia, ele nem se quer nos cumprimentou com seu cordial boa noite quando passou por mim e meus irmãos que brincávamos de peteca no jardim de casa; ele apenas entrou em sua casinha e só saiu no dia seguinte alegando que estava com uma dor de cabeça impertinente, e que não iria sair por nada no mundo, e realmente não saiu, nem quando a minha mãe o chamou para vir jantar com a gente, algo que era sagrado para ele. Nós nos agraciávamos com a sua visita, pois ele divertia a nossa mesa, graças a Deus, bem farta. Sempre fazia as preces e sempre contava anedotas de sua infância. Nunca mais, a partir de então, escutamos aquelas alegres historias dele.
Meu pai afirmava que aquela súbita mudança que ele sofrera era por decorrência financeira, pois ele havia feito uns gastos desproporcionais a sua instável economia. Meu pai o ajudava da forma como podia, e ele era bastante grato a isso. Meu pai sempre lhe perguntava se estava em crise, e ele dizia que não, que estava tudo bem, que não era para ele se preocupar.
Mas não estava tudo bem. E isso já fazia um tempo. Mas naquele dia, a sua mudança tornou-se radical. Irreversível. Ele se tornou um ser estranho. Não era mais a pessoa brincalhona que sempre fora; agora ele vivia de expressão séria, e seu riso era bastante forçado. Adquiriu enormes pregas em sua face, parecia que estava sempre aterrorizado, amedrontado com alguma coisa. Adquiriu também um sestro horrendo: sua face se contorcia doentiamente para a esquerda, em um transe de asco horripilante.
Nas tarde de brisa solene, eu sempre gritava pelo o seu nome, para que ele viesse me empurrar no balanço, como sempre fizera comigo. Mas ele não respondia. Na verdade ele nem me sorria mais, e eu ficava muito triste com aquilo. De sua pequena casa, sons aterrorizadores eu escutava. Pensava comigo: será que ele está recebendo visitas? Mas depois eu me certificava que não, que ele estava sozinho, pois via apenas a sua sombra através das frestas, vagueando de um lado para o outro na sua casa.
Um dia, fomos a um evento que estava acontecendo em nossa comunidade. Diversas brincadeiras contagiavam nós, crianças, que aproveitávamos cada segundo de nossa efêmera mocidade. Os pequenos fantoches, com umas historinhas bastante divertidas, era o que mais me chamava atenção e me fascinava. Meu tio, naquele dia, estava com a gente, embora houvesse relutado bastante para que não fosse; porém ele tinha a minha mãe que sempre foi persuasiva e conseguiu, então, lhe convencer a ir com a gente. Começamos a registrar diversas fotos no evento. As câmeras fotográficas eram uma novidade naquele tempo, e quem as possuía, era chamado de barões. Este dia foi muito divertindo, e meu tio até que se soltou mais, tentando, talvez, voltar a ser a pessoa de outrora.
Aconteceu, no entanto, dias depois de revelarmos aquelas fotos, um fato bastante intrigante, mais ainda a meu tio, que ficou mais esdrúxulo do que já estava; em todas as fotos que havíamos tirado, havia um homem com uma expressão séria, fitando-o morbidamente, ás vezes no seu lado direito, às vezes no esquerdo. O homem estava perfeitamente trajado, assim como um respeitoso ancião da cidade. Foram exatas doze fotos e em todas estava aquele desconhecido homem. O que nos deixou mais intrigado, é que aquele homem não estava presente naquele exato momento em que a foto foi batida. Classificamos aquele episódio como fantasmagórico, e pesquisando em relação aquele homem, descobrimos que se tratava de um famoso agiota da cidade.  
Meu tio, dias depois de revelarmos aquelas fotos, foi encontrado morto na sua casa, enforcado com seu próprio lençol. Deixou apenas uma carta escrita com as mãos trêmulas. Uma carta que desmistificava a sua estranha mudança.
“Despeço-me da vida por dever a morte. Por anos fui vítima da miséria, e não soube enfrenta-la. Agradeço ao meu generoso irmão que sempre me estendeu o braço e sempre me levantou quando estava prestes a cair.
Á dois anos atrás, me endividei com algo supérfluo, escusado de falar. Para me ver livre de tal dívida, e não sujar o nome de minha amada família, que sempre foi tão respeitável, emprestei uma relevante quantia de um agiota, muito indicado por amigos desconhecidos. Ele mostrou-se bastante cordial comigo, e o modo como facilitava o pagamento, fez com que eu me endividasse ainda mais com ele. Cheguei a um ponto de dever mais de 10 mil contos para ele.  Como eu poderia pagar aquilo? Eu não tinha condição alguma para efetuar este pagamento, e os gastos com as coisas fúteis que eu fizera, foram apenas para me afundar ainda mais no abismo.
Fui então diariamente ameaçado de morte. Às vezes empurravam debaixo de minha porta um bilhete, me ameaçando de morte. Às vezes eu ouvia vozes quando vagueava pelas ruas escuras e frias da cidade. Eu estava enlouquecendo com aquilo. Para qualquer lugar que eu olhasse, eu via o rosto do meu credor e de seus homens encapuzados.
Angustiado e não encontrando solução, cheguei à conclusão que deveria eliminar aquele imbróglio. Antes eu havia pensado em tirar a minha vida, mas optei em tirar a dele. Foi então que aluguei uma pistola, com o pouco dinheiro que tinha, para acabar com aquele homem, para eu poder dormir em paz, sem medo de pregar os olhos. Matei-o justamente no seu escritório, antes dele me apontar a sua arma, antes dele me dizer aquela maldita frase: pague o que me deve.
Mas aconteceu, desde então, uma sádica perseguição fantasmagórica. Comecei a enxergar aquele homem em todos os lugares que ia. Em minha casa, as perseguições eram mais mórbidas e constantes. Eu o via mexendo em meu guarda roupas, com a sua feição avarenta e perversa, talvez estivesse procurando dinheiro. Eu gritava dizendo que não havia nada ali, mas ele não me escutava, estava cego da verdade. Na minha cama, eu já não tinha mais espaço, ele a dominava, e quando tentava me deitar, ele me expelia, me colocava para pôr no chão, junto com os ratos e as baratas que entravam pelas frestas carcomidas do meu piso de madeira.
Louco e farto de tudo isso, aqui estou; escrevendo essa carta, relatando o meu suicídio para me ver em paz deste ser avarento. O nó está feito, agora só falta eu acabar com isso, e acabar de escrever esta carta.
Adeus.


por Patrick Santos

Ávido Demais


Quanto tempo que nós não nos víamos. Eu estava realmente morrendo de saudade daquela mulher.
Abracei-la fortemente em meu corpo.
Abracei-la tão forte que ela suspirava de prazer e tormento.
Puxei seu pescoço abruptamente perto de mim, e a beijei sugando todo o sumo que escorria de seus poros. Mas meus beijos, estranhamente, não foram correspondidos.
Seu modo frio me estranhou bastante. Estava indiferente. Parece até que ela não sentia o mesmo prazer que eu sentia ao nos revermos.
Confesso que não me contive. Então usei a força; e assim lhe possui.
Mas acontece que ela não reagia, e não precisei de força alguma para lhe sugar.
Só depois de espirrar meu gozo por seu corpo e me estender sobre ele, foi que percebi que a mulher que eu tanto amo, na verdade estava morta.
Talvez tenha sido o meu abraço forte, a minha ânsia, a angustia, a saudade doentia que eu tinha por ela que a tenha matado.
Talvez se ela tivesse retribuído meu abraço forte, sentisse a mesma ânsia, a mesma saudade que eu senti, ela poderia, talvez, ter sobrevivido.


 por Patrick Santos

A tubulação




 Antes mesmo de se ter um nome, uma vila, que tinha aproximadamente quinze casas, todas grudadas uma nas outras, morava ali uma mulher com uma aparência horrenda e assustadora. Era possuidora de uns enormes olhos, acompanhados de uma sobrancelha espessa como antenas de barata. Tinha um sinal tão grande em seu nariz que muitos confundiam com um carrapato que estava ali pousado. Seus lábios eram grossos e sofria de um excesso de pelugem, dado a isso, tinha um enorme bigode que raspava costumeiramente deixando seu lábio superior enormemente verdeado. Mas, apesar de todos estes defeitos, tinha um corpo bastante sexy e atraia olhares de vários homens solteiros e casados. Morava apenas com a sua mãe, uma senhora já doente e portadora de cadeiras de rodas.
                              
Conta o povo que aquela mulher era louca para fazer sexo com um homem casado, bastante sedutor; este era vizinho seu e ela sempre fazia de tudo para manter relação sexual com ele, mas este, no entanto, com asco da pobre mulher e com um cardápio apraz, se fazia de surdo quando essa lhe enviava cantadas, até mesmo quando tomava seu banho e fazia serenatas de amor para ele, com letras chulas e indecentes, possivelmente se masturbando pensando nele. A tristeza pela a tração não correspondida, aquele louco desejo, lhe deixava molhada nos dias de excitação e abstenção ao sexo, lhe afundava ainda mais o rosto e lhe deixava com uma aparência mais horrível ainda. Sempre que tinha oportunidade, provocava-o, e sempre deixava sua janela aberta quando iria trocar a roupa. Insinuava-se com os seios para fora, mas o homem, envergonhado, fechava a janela e acabava com o show da garota. Até que certo dia, a esposa e os três filhos do homem fizeram uma viagem de nove dias para possivelmente visitar a sua mãe que morava tão longe da cidade e que estava bastante doente. Assim o caminho ficou livre para ela. Ou seria naqueles nove dias, ou seria nunca mais.

Numa noite quente, a mulher, com a maior cara de pau possível, bateu na porta do homem com apenas um shortinho de dormir e uma camisa demasiada transparente, de modo que era possível observar claramente os seus mamilos pontiagudos e enrijecidos por tamanha excitação. O homem ficou estupefato com tanta sensualidade.

- Você poderia me dar um pouquinho de açúcar? – Disse ela com um recipiente nas mãos.

- Sim, pois não. – Disse o homem trajado apenas com um short de clube. Em seu peito havia um enorme sinal vermelho de nascença com a aparência de uma cruz. O sinal ia do mamilo esquerdo até a sua costela bastante peluda.

Quando o homem foi até a cozinha buscar o açúcar no recipiente, a mulher entrou e o seguiu sorrateiramente com passos largos e silenciosos. Vislumbrou aquele homem ali na cozinha, seminu, com aquele short sedutor, aquele abdominal dividido e peludo. Sentiu uma vontade enorme de pular em cima dele, esfregar seu sexo sobre o dele, escraviza-lo de prazer. Mas, antes de fazer tudo aquilo, olhou para uma porta semiaberta, a pecaminosa mulher enxergou uma rapariga de aproximadamente dezessete anos, despindo-se de seu baby doll e se estirando de quatro na cama. A mulher quase caiu para trás, consternada com o que vira. Rapidamente saiu por onde havia entrado, esquecendo até mesmo de pegar o açúcar que havia pedido ao seu deus grego. Chorou a noite inteira e prometeu vingar-se daquele homem que nem mesmo era seu. Diz o povo que primeiro ela pensou em delatar o homem a sua esposa, mas logo achou fraco demais àquela vingança.

Foi então que ela teve a nojenta ideia, a mais porca possível. A mulher entendia muito bem de encanação, pois seu falecido pai trabalhara com isso, e ela, que até os vinte e tantos anos tinha comportamentos, digamos, masculinos, se interessara muito pelo o trabalho braçal do pai, de modo que adquiriu bastantes conhecimentos do assunto. Com uma destreza de verdadeiros encanadores e profissionais da área, a mulher desviou o cano do ralo do banheiro do homem para o seu chuveiro, uma operação que lhe custara três dias seguido de árduo trabalho, incluindo até mesmo a madrugada. As siamesas casas e as tubulações expostas daquele tempo também facilitaram muito aquela ideia absurda.

A mulher sabia que, como a sua esposa estava viajando e que nem toda a noite ele poderia levar uma mulher para a sua casa, visto que a vizinhança tem a língua afiada, ele se masturbaria no banheiro, afinal os homens não conseguem ficar dois dias sem dar uma gozada, principalmente quando se é novo de trinta e poucos anos como era aquele homem; aquele esperma, então, gozado com o pensamento sabe lá em quem, correria para o seu chuveiro, que na verdade era um cano grosso que espatifava no piso do banheiro, mas, naqueles dias, ela usara um balde para que aquela água imunda se alojasse e ficasse ali parada, assim seria mais fácil encontrar vestígios de esperma.

 Mas qual era a sua intenção em fazer isso?  

Pegar o esperma e filtrar em sua vagina.

A mulher engravidou e teve, apesar da nojenta gravidez, um lindo menino.

 Mas como poderia provar que de fato era dele?

Simples. Através do enorme sinal da cruz, idêntico ao do homem e no mesmo, meticulosamente no mesmo lugar que a do dele. Não houve como refuta-la sobre isso. O menino era a cara do pai, e a esposa do homem pediu o divórcio e acabou com a vida daquele adúltero. O homem quase ficou louco, não encontrava razão para aquilo. A mulher, depois de tudo aquilo, desapaixonou-se pelo o homem. Tão subitamente assim. Quando uma mulher planeja uma vingança, até o diabo tem medo.


Por Patrick Santos

A vagina animal



Aconteceu numa antiga povoação, um caso estranho, funesto, por assim dizer. Homens tiveram seus pênis decapitados por dentárias idênticas às de piranhas. Dir-se-ia a lenda que não houve sobreviventes a estes macabros ataques. Todos os homens sangraram até a morte.
Mas quem poderia estar por trás de um crime tão absurdo como este?
Diz à lenda que se tratava de uma linda mulher, cuja a inocência era ter um grande amor, imaculado e eterno, assim como toda senhorita solteira deseja ter. E, por sorte, havia encontrado este grande amor; um homem forte, atraente e educado, o sonho de toda dama da época.
Mas o amor de um homem às vezes esmaece. Desencanta-se. E então se aventura por outras curvas tentadoras.
Que decepção foi ver o seu homem, o seu príncipe encantando fazendo amor com outra mulher em um rio. O coração da mulher quebrou-se, assim como um frágil cristal. Amargurada e ofendida, a mulher invocou o Deus Dagon, o homem-peixe. O mar chacoalhou suas ondas para a beira do mar. Aquele som emitia uma voz nada ininteligível. Ouvia-se claramente: “o que queres?”. Confusa, a mulher não soube o que pedir para aquele semideus. Mas logo lhe veio à única palavra que pairava em sua mente: “Vingança”, disse ela. O deus, compreendendo a dor que refletia em seu olhar, disse: “de que forma queres te vingar?”; “castigando os adúlteros sendo uma adúltera”. A ideia mais profana veio imediatamente na cabeça do semideus, mas, antes de lhe dar tal poder, Dagon exigiu o seu corpo, o seu sexo. A moça não relutou em manter relação com o deus, então fizeram amor nas profundezas do mar.
Foi a partir de então que os ataques a pênis começaram. A mulher tinha coleção deles. De diversos tamanhos e espessuras. Seduzia os homens casados e, antes da penetração sexual, a vagina da mulher mastigava o pênis, decepava-o e jogava no fogo até o membro virar pó.

Àqueles ataques a homens adúlteros perdurou por séculos, e os homens, receosos dos ataques, pensavam duas vezes antes de trair suas esposas.

por Patrick Santos

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Um Espectro no Navio



 De repente você está parado no tempo, olhando para um vazio, que de certa forma é mais atrativo de que tudo ao seu redor. Você fita aquele espaço e, até mesmo sorri para ele. Acha-lhe belo e aprazível, em todos os seus sentidos. Mas algo lhe desperta. Uns olhos escuros, tão escuros quanto àquele vazio. Sim, eram destinados a minha pessoa. Eram realmente lindos aqueles olhos negros. Fitavam-me benevolentemente. Reiteradamente. Entre as trocas de olhares entre eu e aquele belo ser, aconteceu algo inusitado; triste fato. Um homem, aparentemente somando (conforme a sua aparência que me foi pouco perceptível por causa da distância entre nós) trinta e cinco anos de idade, acabara de sofrer um infarto e morrera ali mesmo, naquele navio, em pleno passeio. “Socorram-no, pelo o amor de Deus”, as pessoas gritavam desesperadamente.
Mas nossos olhares, no entanto, continuavam, e até mais intensos. Acredito que eles foram até pecaminosos, pois desrespeitavam aquele corpo que jazia no solo. Um aglomerado de pessoas rodeava aquela pobre alma que já estava em outro estágio da vida.
Intensos olhares; eu não me continha, nem mesmo aquele ser divino. Foi então que ergueu sua mão e, num gesto afetuoso, acenou-me. Eu a retribui, gentilmente. Mas seus olhares e gestos, outrora intensos, se modificaram de tal forma que me estranharam muito. Em seus olhos eu não via as lágrimas que ameaçavam cair. Seu semblante triste e emocionado, de certa forma me emocionou também, e foi então que ela virou-se lentamente, porém ainda me fitando, e se retirou daquela sala de jantar, daquele imenso navio.
 Segui-a. obedecendo meus instintos.
No corredor do navio, eu continuava a lhe seguir, seus passos eram lentos, mas espaçosos. Foi quando se adentrou na cabine do capitão do navio. Estranhei, pois aquele acesso era restrito. Mas não me intimidei, e então bati na porta, e foi então que o capitão veio até mim e me interrogou perguntando-me o que queria. Disse-lhe da tal garota que havia entrado em sua cabine, e este, trêmulo, disse:
- Estás a me ludibriar?
- De forma alguma, capitão. – Respondi-lhe.
Dei-lhe mais descrições da moça e ele ficava cada vez mais aturdido com o que eu lhe dissera.
Ainda desacreditado da perfeita descrição que eu lhe dera, trouxe-me uma foto, uma pequena lembrança de sua filha, e, para a minha surpresa, era justamente a garota que a qual eu seguia.
- Sim, é ela mesmo. – Respondi-lhe.
- Impossível. – Disse-me olhando com temor.
- Por que, senhor?
- Minha filha morreu há três anos e meio.
Petrifiquei-me com aquela declaração do ancião.
- Ela, no entanto, – Continuava ele – me aparecia em forma de espectro e, às vezes, nos meus sonhos. Dizia-me que só iria embora deste mundo quando o seu anjo da guarda lhe viesse buscar. Deus o enviaria, e não tardaria com aquela promessa. Com o tempo comecei a me acostumar com as suas visitas. Alegravam-me os dias.
Cada vez mais eu me interessava por o que aquele homem dizia que proseava sem titubear. 
- Senhor, – Disse eu – de que forma sua filha morreu?
- Pulou do navio, sem motivos aparentes. Sofri dia e noite, até que um dia ela me apareceu na sala de jantar, no meio do aglomerado de gente.
- Igual a mim. – Disse eu.
- Sim. – Afirmou-me ele.
- Capitão, tenho toda a certeza que a vi entrar em sua cabine; jamais brincaria com falecidos.
- Creio em você, meu jovem. Em seus olhos consigo ver lágrimas que estranhamente não cedem. Só estranho como ela lhe apareceu.
De repente alguém bateu na cabine do capitão e o chamaram para averiguar um caso. “Volto já”, disse-me ele. De uma sala, que julgo ser a cozinha da cabine do capitão, vi surgir ela, aquela linda criatura. Tão linda criatura de Deus. Se eu me apaixonei? Confesso que nunca senti nada parecido com o que senti. Ela aproximou-se de mim, e disse:
- Pensei que você nunca viria me buscar.
Arrepiei-me.
- Pois estou aqui. – Disse eu admirando-a.
Ela sorriu. Segurou a minha mão e senti uma energia tão positiva, tão solene; me senti em paz com aquele simples contato. Suavemente, começamos a flutuar. Senti meu corpo leve, assim como uma bolha de sabão. Olhávamos um ao outro e sorríamos como se nos conhecêssemos há anos. Percebi então que eu estava realmente flutuando. Sim, literalmente. Pairamos no ar. Foi quando seu pai entrou em sua cabine e nos viu naquele estado de levitação, quase encostando nossas cabeças na abóbada. O homem se persignou e nos disse: “que Deus esteja com vocês”.
- Adeus, papai. – Disse ela. E então sumimos, perdemo-nos naquelas nuvens de algodão.
Meu corpo chegou de manhã cedo em uma determinada cidade. Nem pude ver meu sepultamento. Mas de qualquer forma eu fui feliz, pois o amor me encaminhava para o céu. Amar depois da morte; sim, existe. Minha morte foi tão prematura, porém não me lembro de mais nada dela. Nem quero lembrar, talvez. Mas ainda me dói lembrar dela, quando sofri aquele infarto em pleno navio; quando orei para que aquele homem fosse abençoado. E aquele homem, de fato, era eu.


Por Patrick Santos