Seus olhos refletiam um desejo inaudito que eu jamais
poderei explicar. Talvez tenha sido seu sangue fervescente que pelo faro eu
achei, afinal somos dois seres completamente esdrúxulos: eu por natureza, ela
por mera, ou talvez, insana predestinação. E foi aquele olhar frio, quase sem
vida, assim como o meu, assim como sou, que me chamou atenção. Aproximei-me furtivamente
dela, e ela nem se deu conta de que surgi quase que como um espectro em seu
lado. Segurei sua mão e ela sentiu algo frio, úmido lhe apalpar. Tentou me
repelir, mas quando viu meus olhos fixando-a macabramente, se fez submissa e se
entregou ao seu bel prazer. Ela estava cheia da monotonia e dos mesmos rostos
de sempre. Ela queria algo novo. Inovador. E achou-me.
O som estava ensurdecedor naquela boate dos anjos
diabólicos. A banda tocava algo que eu jamais havia ouvido antes. A guitarra,
ligada ao pedal de apenas um som de efeito metálico, berrava feito uma mãe ao
ver seu filho se entalar com uma espinha de peixe. O baixo irritava até mesmo
um ser em sua plena inconsciência devido estar ebriamente revestido de
comprimidos e seringadas para lhe causar viagens alucinógenas. A bateria foi o
ápice de minha tolerância. Batia desarticuladamente e fez-me se afastar e me
desorientar. Mas bem no fundo eu estava adorando aquilo. Foi ao me afastar que
eu a observei-a. Após tocar-lhe, como a pouco disse antes incisivamente, nossos
opostos de súbito se atraíram. Foi muito fácil tirar-lhe daquele pseudo inferno
para lhe levar ao, sem soma de dúvida, verdadeiro inferno.
Levei-a á meu habitat, lugar de
lúgubre e perversa visão. Ela sentiu-se em casa. Foi se acamando e eu apenas a
observando. Foi quando ela proferiu aquela frase que reverberou meus olhos
rubros: “Deixe-me roxa de tanto me comer”. Não suportei aquela afronta. Parti
para cima daquele corpo em chamas e ao sentir aquele fervor, deletei-me de suor
e prazer. Disse-me enquanto eu a experimentava: “Você tem uma cara de maníaco
psicopata. Tipo aqueles que seduzem e matam.” Fixei meus olhos em seus seios e
ela continuou dizendo: “Por que você não sorri? Vou acabar acreditando que és,
de fato, um psicopata.” Meus olhos se direcionavam agora para seu pescoço. Em
estase, disse-lhe francamente: “Não sorrio, pois quando sorrio meus dentes se
retraem e caem.” Ela sorriu euforicamente e eu a possui como jamais havia
possuído outra. Finquei, então, meus afiados dentes naquele pescoço lindo e
suculento. Seu sangue escorria fluindo para seus fartos e arredondados seios
apetitosos. Minha língua deslizava por ela para deliciar aquele líquido que
venero e suplico. Cada gota é demasiada importante, pois apenas uma pode salvar
um ser indiferente como eu.
Senti o seu corpo se contorcer,
foi então que peguei uma vela e lhe pinguei aquela cera quente por todo o seu
corpo. Aquele ritual macabro, asseguro-lhes, foi mais fantástico do que um
orgasmo. Seu corpo ficou enrijecido e, de súbito, frio como o meu.
Acordei seminu e não a vi. Quando
olhei para o alto, vi-a pendurada de cabeça para baixo completamente nua.
Criei-la. Ela seria a minha esposa, a rainha do mal. Dormíamos juntos em um
caixão. Fazíamos amor ali mesmo, naquele claustro.
Tivemos noites maravilhosas. Porém
elas foram ficando escassas. Sua presença foi se tornando fugaz a cada noite. Esqueci-me
de alimenta-la. Era isso. Ela saia todas as noites para se fartar. Se eu fosse
um cara mais vidrado em notícias, eu teria percebido. Começamos a trazer
indivíduos que curtiam uma transa a três. Foi o nosso modo de se alimentar. Um
dia era um sexo feminino, outro dia um masculino. Certo dia matei um antes
mesmo de devora-lo. Senti um desgraçado ciúme por ela. Enterrei minha espada em
seu pescoço que por muito pouco quase acertara a minha rainha. Desde aquele
episódio, ela tornou-se indiferente comigo. Acordei com muita intuição certo
dia. Minha intuição não falhara, pois me surpreendi segurando uma estaca que
estava para se adentrar em meu lúgubre coração. Era ela que tentara me enfiar
aquele instrumento. Puxei-a violentamente e fizemos amor á noite toda.
Ela sentia uma fome muito fora do
normal. Começou a atacar perversamente inúmeras pessoas. Até mesmo as que eu
muito estimava. Sua força era descomunal. Assim como a sua sensualidade. Tinha
o dom de enfeitiçar qualquer um com seu corpo demasiado atraente. Seus olhos
encantavam o espirito e, eroticamente, excitava até mesmo um impotente.
Muito me aprazia o seu sexo. Tinha
o cheiro do mal.
O que eu não sabia, e que jamais
poderia imaginar, era que aquela formosura tinha uma paixão incógnita. Ela
jamais havia partilhado aquilo comigo. Pegou-me de surpresa quando eu a vi com
ele em meu caixão fazendo sexo. Apesar de ser isto, eu tenho sentimentos. Meu
coração é morto, mas minha alma, apesar de estar sentenciada, ainda vive e
move-se em mim. Descobri, com o tempo, que aquele sujeito era o seu amor, seu
esposo, quando esta ainda era viva. Voltando a traição, que eu flagrara,
imediatamente enterrei uma estaca no peito daquele sujeito. Ele morreu ali
mesmo, ao lado dela. Segurei a mão da minha rainha, e vivemos felizes para
sempre. Literalmente.
por Patrick Santos
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