quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Remorso



Uma noite fria vinha, e com ela uma vontade imensa de chegar em casa e abraçar a minha família. Minha esposa, neste horário, já deveria estar preparando a janta, e o nosso bebê, com certeza, dormindo em seu berço adornando de brinquedos. Antes da chuva me prender em algum canto da rua, corri feito um louco, pulando as poças de água que já se formavam nas ruas esburacadas. Então cheguei em casa. Estava tudo como eu supus. Minha esposa na cozinha, com o seu avental, o cheiro da comida se emanando, o nosso bebê, deitado no berço, com aquele cheirinho de criança enfeitiçando o meu nariz. “Tudo bem, amor?” disse eu a ela. Ela meneou a cabeça, sem dizer palavra. Então a abracei e em seus olhos, uma lágrima escorreu. “Está tudo bem”, disse eu. “Sempre estará”. Seu choro se amenizou, então fui até o quarto de nosso bebê. Por minha sorte, ele acabara de acordar. Ergui em meu peito, e cantei uma canção de ninar, apaziguando o seu sublime choro. Seu choro cessou, e então, pela primeira vez, ele abriu os seus olhos e sorriu para mim. Não contive minha emoção; chorei. Chorei muito. Minha esposa surgiu na porta e, com um semblante de saudade, disse: “Está pronto?”. Eu esperava uma afirmação de que o almoço já estava na mesa, e não uma pergunta. “Se estou pronto?”, perguntei. “Sim”, disse-me ela. “Estou”, respondi. Foi então que ela aos poucos foi desaparecendo, sumindo da minha vista. Meu filho, que estava em meus braços, também ia sumindo, e eu, desesperado, me perguntava por que aquilo. Fechei meus olhos e não os vi mais. O quarto do meu bebê não passava de um quarto abandonado, onde se jogava entulhos como roupa velha e móveis inutilizados. Estremeci. O que estava acontecendo? Fui até a cozinha, e encontrei apenas moscas na mesa. O meu desespero só se agravava. Só depois que me debrucei no sofá e dei o meu último gole no uísque, foi que me veio a triste lembrança de que o meu filho nem sequer havia nascido, pois morreu no ventre da minha esposa, naquele maldito dia em que viramos o carro por meu excesso de embriaguez.

Por Patrick Santos 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Doentio caso dos irmãos disformes




- Esta intimação deverá ser entregue neste endereço... – Disse um cidadão de bigode espesso e hálito forte de tabaco e café. 
Os dois policiais, Ulisses e Gabriel, se dirigiriam então ao endereço dado pela a sua chefia. Um endereço que o experiente policial Ulisses pegou com relutância. Ulisses era um daqueles caras que sempre evitava ameaças, riscos, lugares inescrupulosos. Para você ter uma ideia, em seus vinte e poucos anos de profissão, Ulisses nunca sacou a sua arma, e, obviamente, nunca atirou em ninguém. Conhecia a má reputação daquele endereço e sempre evitava passar por lá. Casos bizarros eram ditos por populares, tanto transeuntes como próprios moradores da área. Seres estranhos rodeavam a extensa viela de aproximadamente duzentos metros. Os mais supersticiosos diziam que os seres eram criaturas de outro mundo. Seres completamente estranhos e macabros. Possuíam os olhos ardentes como uma chama e suas cabeças eram idênticas a óvnis. Já os sensatos diziam que eram apenas sádicos e estupradores; possuidores de máscaras, que o que a viela precisava era de uma ronda diária de guarnição policial.
Ulisses contava tudo aquilo, com receio ao jovem Gabriel, novato e sedento a ação.
- O que na verdade você teme, Ulisses? – Perguntou o policial Gabriel.
- Pode ser um conto popular – Disse Ulisses conduzindo a viatura policial e se dirigindo ao local ordenado pelo o chefe. – mas as mortes são verdadeiras. Tenho uma tia que mora naquela viela, cara. E ela afirma já ter visto várias vezes dois seres, um com a cabeça de porco e outro com feição de sapo, rondarem as ruazinhas de madrugada, provavelmente procurando vítimas.
- Ora essa. – Disse Gabriel. – Quantos anos têm a sua tia?
- Isso é irrelevante dizer. O que é mais importante neste momento, meu caro, é que vamos bater na casa onde estes dois seres foram vistos, pois aconteceu mais um crime na viela na noite passada e vítimas afirmam dizer severamente que estes dois anormais vieram de lá.
- Bom, mas quem mora na casa?
- Um idoso ranzinza demasiado misantropo. Dizem ser o mais antigo vizinho do beco. Depois que sua mulher e seu filho faleceram, de tuberculose, o velho se enclausurou com a sua filha mais nova em sua casa de uma tal forma, que poucos o viam. Anos mais tarde, foi á vez de sua filha, na época com vinte e cinco anos, vir a morrer.  A solidão esmiúça até mesmo um eremita, meu caro. Apelamos até para a maldade para não ficarmos só.
- O que você quer dizer com isto Ulisses? – Disse o jovem policial mostrando interesse pela a conversa.
- Nada, meu caro. Eu só quero minha aposentadoria, nada mais que isso. Só me faltam dois meses.
- Fale-me. Você tem algo em mente. Compartilhe.
- Não é nada. Só posso lhe afirmar que não estamos sozinhos nesta terra. – O jovem policial franziu o sobrolho bastante admirado. – Você, se estuda um pouco a antiguidade, há de convir que os homens adoravam seres completamente esdrúxulos, principalmente os egípcios. As esculturas em pedras são uma prova disso, bem como as artes desenhadas em grandes rochas. Lá podemos ver vários seres com um formato diferente. Homens com cabeça de lobo, metade homem metade cavalo. Enfim, várias deformações, e os homens os tratavam como deuses. Sim, Gabriel; aquele velho doente adora essas imagens e, de alguma forma, lhes deu vida.
 Gabriel lhe olhou de soslaio, muito desconfiado, e disse:
- Bela historia, Ulisses. Você quase me convenceu.
- Não seja sarcástico.
- Não estou sendo, amigo. Você realmente precisa se aposentar. – Disse o jovem sorrindo.
- Bom, é aqui. – Disse Ulisses parando o carro.
Os dois desceram e bateram na casa do senil idoso.
Não foram recepcionados. “Era de se prever”, disse Ulisses.
- Senhor, temos ordem de entrar em sua residência nem que seja a força. Por favor, colabore.
Quando os dois se programavam para derrubar aquela porta, ela se abriu lentamente causando um ruído agonizante. Os dois entraram cautelosamente. Ulisses mantinha sua arma em sua cintura, já o jovem Gabriel já havia sacado a sua.
- Guarde isso, seu imbecil. – Disse Ulisses furiosamente.
- Senhor, podemos conversar? – Disse Ulisses alterando a voz.
Mais uma porta se abriu, dessa a vez do segundo andar da casa. Os dois subiram e, enfim, encontraram o velho sentado em uma cadeira de rodas e em avançado estado de decrepitude. Uma luz fraca iluminava malmente o quarto lúgubre.
- Entrem. – Disse este.
Continuou...
- Queiram me desculpar por não ter ido lhes recepcionar, é que realmente não houve tempo suficiente. Porém lhes respondi. Ouviram-me?
- Não senhor! – Disse Gabriel.
- A minha voz já não é mais como antes! Mas digam-me, que privilégio de visita é esta, podem me dizer?
- Senhor, o senhor mora só? – Perguntou Ulisses.
- Praticamente.
- Ok, senhor. Tente colaborar com a gente. Na noite passada ocorreu um crime hediondo perto de sua localidade. Um homem teve a sua cabeça devorada. Peritos alegaram que a sua cabeça foi degolada por dentes. Um enorme animal o devorou.
- Bom, mas o que eu tenho a ver com isso, meu jovem? Você está me assustando.
- Testemunhas alegaram veementemente que o animal pulou o muro de seu quintal, e que logo depois sumiu.
- Meu quintal é sempre alvo de peraltas, senhor.
- Sei, senhor, mas acontece que não é a primeira vez que eles pulam para o seu quintal. Os vizinhos acreditam que o senhor lhes dá moradia. Ter animais nocivos é crime.
Os olhos do velho se ruborizaram e suas veias pareciam que iam espocar.
- Como ousa chama-los de animais, seu imundo! Lave a boca para falar de meus filhos.
- O QUÊ?
O ser de feição de sapo, então, surgiu e soltou uma gosma verde de sua boca em cima do jovem Gabriel que aos poucos foi se derretendo. Aquela gosma ácida aguou o pobre rapaz. Ulisses ficou petrificado com a cena. Surgiu, então, o seu irmão com a sua feição de porco.
- Suponho que esteja muito admirado, né soldado! Sim, com certeza. Ah, aquela vadia. Não era para ter terminado assim. Juro para você que não. Uma mãe jamais deve negar o seu filho, independente de como seja, concorda comigo soldado? – Ulisses meneou sua cabeça. – O primeiro a sair foi o Jimme, que o chamam diabolicamente de feição de porco. Depois veio o Jenny, o feição de sapo. Eu mesmo fiz o parto. Quando ela os viu, a maldita gritou como uma louca: “MONSTROS, MONSTROS, SÃO TODOS MONSTROS”. As crianças apenas choravam. Como pode uma mãe odiar um filho do modo como odiou! Com a mesma navalha que usei para tirar meus meninos daquela bruxa, enfiei no pescoço dela fazendo espirrar sangue sujo nos meus bebês. Ela serviu de alimento para eles. Em vez de leite, ela lhes deu sangue. Muito sangue. E até hoje eles adoram o sangue.
- De quem você está falando? – Perguntou Ulisses, agoniado.
- De minha filha, soldadinho.
 Ulisses, que nunca havia sacado a sua arma antes, desferiu apenas um tiro no coração do velho lúcido.

As crianças, de fruto incestuoso, choravam pela a morte do amado e diabólico pai. Ulisses não teve coragem de atirar nas crianças. Pareciam indefesas lamentando a morte do pai satânico.

Dívida com a Morte



Meu tio, um cara solteiro, estudante de advocacia, e que sempre foi bastante extrovertido, chegou numa noite em sua casa, que ficava nos fundos da nossa, bastante nervoso, e, neste dia, ele nem se quer nos cumprimentou com seu cordial boa noite quando passou por mim e meus irmãos que brincávamos de peteca no jardim de casa; ele apenas entrou em sua casinha e só saiu no dia seguinte alegando que estava com uma dor de cabeça impertinente, e que não iria sair por nada no mundo, e realmente não saiu, nem quando a minha mãe o chamou para vir jantar com a gente, algo que era sagrado para ele. Nós nos agraciávamos com a sua visita, pois ele divertia a nossa mesa, graças a Deus, bem farta. Sempre fazia as preces e sempre contava anedotas de sua infância. Nunca mais, a partir de então, escutamos aquelas alegres historias dele.
Meu pai afirmava que aquela súbita mudança que ele sofrera era por decorrência financeira, pois ele havia feito uns gastos desproporcionais a sua instável economia. Meu pai o ajudava da forma como podia, e ele era bastante grato a isso. Meu pai sempre lhe perguntava se estava em crise, e ele dizia que não, que estava tudo bem, que não era para ele se preocupar.
Mas não estava tudo bem. E isso já fazia um tempo. Mas naquele dia, a sua mudança tornou-se radical. Irreversível. Ele se tornou um ser estranho. Não era mais a pessoa brincalhona que sempre fora; agora ele vivia de expressão séria, e seu riso era bastante forçado. Adquiriu enormes pregas em sua face, parecia que estava sempre aterrorizado, amedrontado com alguma coisa. Adquiriu também um sestro horrendo: sua face se contorcia doentiamente para a esquerda, em um transe de asco horripilante.
Nas tarde de brisa solene, eu sempre gritava pelo o seu nome, para que ele viesse me empurrar no balanço, como sempre fizera comigo. Mas ele não respondia. Na verdade ele nem me sorria mais, e eu ficava muito triste com aquilo. De sua pequena casa, sons aterrorizadores eu escutava. Pensava comigo: será que ele está recebendo visitas? Mas depois eu me certificava que não, que ele estava sozinho, pois via apenas a sua sombra através das frestas, vagueando de um lado para o outro na sua casa.
Um dia, fomos a um evento que estava acontecendo em nossa comunidade. Diversas brincadeiras contagiavam nós, crianças, que aproveitávamos cada segundo de nossa efêmera mocidade. Os pequenos fantoches, com umas historinhas bastante divertidas, era o que mais me chamava atenção e me fascinava. Meu tio, naquele dia, estava com a gente, embora houvesse relutado bastante para que não fosse; porém ele tinha a minha mãe que sempre foi persuasiva e conseguiu, então, lhe convencer a ir com a gente. Começamos a registrar diversas fotos no evento. As câmeras fotográficas eram uma novidade naquele tempo, e quem as possuía, era chamado de barões. Este dia foi muito divertindo, e meu tio até que se soltou mais, tentando, talvez, voltar a ser a pessoa de outrora.
Aconteceu, no entanto, dias depois de revelarmos aquelas fotos, um fato bastante intrigante, mais ainda a meu tio, que ficou mais esdrúxulo do que já estava; em todas as fotos que havíamos tirado, havia um homem com uma expressão séria, fitando-o morbidamente, ás vezes no seu lado direito, às vezes no esquerdo. O homem estava perfeitamente trajado, assim como um respeitoso ancião da cidade. Foram exatas doze fotos e em todas estava aquele desconhecido homem. O que nos deixou mais intrigado, é que aquele homem não estava presente naquele exato momento em que a foto foi batida. Classificamos aquele episódio como fantasmagórico, e pesquisando em relação aquele homem, descobrimos que se tratava de um famoso agiota da cidade.  
Meu tio, dias depois de revelarmos aquelas fotos, foi encontrado morto na sua casa, enforcado com seu próprio lençol. Deixou apenas uma carta escrita com as mãos trêmulas. Uma carta que desmistificava a sua estranha mudança.
“Despeço-me da vida por dever a morte. Por anos fui vítima da miséria, e não soube enfrenta-la. Agradeço ao meu generoso irmão que sempre me estendeu o braço e sempre me levantou quando estava prestes a cair.
Á dois anos atrás, me endividei com algo supérfluo, escusado de falar. Para me ver livre de tal dívida, e não sujar o nome de minha amada família, que sempre foi tão respeitável, emprestei uma relevante quantia de um agiota, muito indicado por amigos desconhecidos. Ele mostrou-se bastante cordial comigo, e o modo como facilitava o pagamento, fez com que eu me endividasse ainda mais com ele. Cheguei a um ponto de dever mais de 10 mil contos para ele.  Como eu poderia pagar aquilo? Eu não tinha condição alguma para efetuar este pagamento, e os gastos com as coisas fúteis que eu fizera, foram apenas para me afundar ainda mais no abismo.
Fui então diariamente ameaçado de morte. Às vezes empurravam debaixo de minha porta um bilhete, me ameaçando de morte. Às vezes eu ouvia vozes quando vagueava pelas ruas escuras e frias da cidade. Eu estava enlouquecendo com aquilo. Para qualquer lugar que eu olhasse, eu via o rosto do meu credor e de seus homens encapuzados.
Angustiado e não encontrando solução, cheguei à conclusão que deveria eliminar aquele imbróglio. Antes eu havia pensado em tirar a minha vida, mas optei em tirar a dele. Foi então que aluguei uma pistola, com o pouco dinheiro que tinha, para acabar com aquele homem, para eu poder dormir em paz, sem medo de pregar os olhos. Matei-o justamente no seu escritório, antes dele me apontar a sua arma, antes dele me dizer aquela maldita frase: pague o que me deve.
Mas aconteceu, desde então, uma sádica perseguição fantasmagórica. Comecei a enxergar aquele homem em todos os lugares que ia. Em minha casa, as perseguições eram mais mórbidas e constantes. Eu o via mexendo em meu guarda roupas, com a sua feição avarenta e perversa, talvez estivesse procurando dinheiro. Eu gritava dizendo que não havia nada ali, mas ele não me escutava, estava cego da verdade. Na minha cama, eu já não tinha mais espaço, ele a dominava, e quando tentava me deitar, ele me expelia, me colocava para pôr no chão, junto com os ratos e as baratas que entravam pelas frestas carcomidas do meu piso de madeira.
Louco e farto de tudo isso, aqui estou; escrevendo essa carta, relatando o meu suicídio para me ver em paz deste ser avarento. O nó está feito, agora só falta eu acabar com isso, e acabar de escrever esta carta.
Adeus.


por Patrick Santos

Ávido Demais


Quanto tempo que nós não nos víamos. Eu estava realmente morrendo de saudade daquela mulher.
Abracei-la fortemente em meu corpo.
Abracei-la tão forte que ela suspirava de prazer e tormento.
Puxei seu pescoço abruptamente perto de mim, e a beijei sugando todo o sumo que escorria de seus poros. Mas meus beijos, estranhamente, não foram correspondidos.
Seu modo frio me estranhou bastante. Estava indiferente. Parece até que ela não sentia o mesmo prazer que eu sentia ao nos revermos.
Confesso que não me contive. Então usei a força; e assim lhe possui.
Mas acontece que ela não reagia, e não precisei de força alguma para lhe sugar.
Só depois de espirrar meu gozo por seu corpo e me estender sobre ele, foi que percebi que a mulher que eu tanto amo, na verdade estava morta.
Talvez tenha sido o meu abraço forte, a minha ânsia, a angustia, a saudade doentia que eu tinha por ela que a tenha matado.
Talvez se ela tivesse retribuído meu abraço forte, sentisse a mesma ânsia, a mesma saudade que eu senti, ela poderia, talvez, ter sobrevivido.


 por Patrick Santos

A tubulação




 Antes mesmo de se ter um nome, uma vila, que tinha aproximadamente quinze casas, todas grudadas uma nas outras, morava ali uma mulher com uma aparência horrenda e assustadora. Era possuidora de uns enormes olhos, acompanhados de uma sobrancelha espessa como antenas de barata. Tinha um sinal tão grande em seu nariz que muitos confundiam com um carrapato que estava ali pousado. Seus lábios eram grossos e sofria de um excesso de pelugem, dado a isso, tinha um enorme bigode que raspava costumeiramente deixando seu lábio superior enormemente verdeado. Mas, apesar de todos estes defeitos, tinha um corpo bastante sexy e atraia olhares de vários homens solteiros e casados. Morava apenas com a sua mãe, uma senhora já doente e portadora de cadeiras de rodas.
                              
Conta o povo que aquela mulher era louca para fazer sexo com um homem casado, bastante sedutor; este era vizinho seu e ela sempre fazia de tudo para manter relação sexual com ele, mas este, no entanto, com asco da pobre mulher e com um cardápio apraz, se fazia de surdo quando essa lhe enviava cantadas, até mesmo quando tomava seu banho e fazia serenatas de amor para ele, com letras chulas e indecentes, possivelmente se masturbando pensando nele. A tristeza pela a tração não correspondida, aquele louco desejo, lhe deixava molhada nos dias de excitação e abstenção ao sexo, lhe afundava ainda mais o rosto e lhe deixava com uma aparência mais horrível ainda. Sempre que tinha oportunidade, provocava-o, e sempre deixava sua janela aberta quando iria trocar a roupa. Insinuava-se com os seios para fora, mas o homem, envergonhado, fechava a janela e acabava com o show da garota. Até que certo dia, a esposa e os três filhos do homem fizeram uma viagem de nove dias para possivelmente visitar a sua mãe que morava tão longe da cidade e que estava bastante doente. Assim o caminho ficou livre para ela. Ou seria naqueles nove dias, ou seria nunca mais.

Numa noite quente, a mulher, com a maior cara de pau possível, bateu na porta do homem com apenas um shortinho de dormir e uma camisa demasiada transparente, de modo que era possível observar claramente os seus mamilos pontiagudos e enrijecidos por tamanha excitação. O homem ficou estupefato com tanta sensualidade.

- Você poderia me dar um pouquinho de açúcar? – Disse ela com um recipiente nas mãos.

- Sim, pois não. – Disse o homem trajado apenas com um short de clube. Em seu peito havia um enorme sinal vermelho de nascença com a aparência de uma cruz. O sinal ia do mamilo esquerdo até a sua costela bastante peluda.

Quando o homem foi até a cozinha buscar o açúcar no recipiente, a mulher entrou e o seguiu sorrateiramente com passos largos e silenciosos. Vislumbrou aquele homem ali na cozinha, seminu, com aquele short sedutor, aquele abdominal dividido e peludo. Sentiu uma vontade enorme de pular em cima dele, esfregar seu sexo sobre o dele, escraviza-lo de prazer. Mas, antes de fazer tudo aquilo, olhou para uma porta semiaberta, a pecaminosa mulher enxergou uma rapariga de aproximadamente dezessete anos, despindo-se de seu baby doll e se estirando de quatro na cama. A mulher quase caiu para trás, consternada com o que vira. Rapidamente saiu por onde havia entrado, esquecendo até mesmo de pegar o açúcar que havia pedido ao seu deus grego. Chorou a noite inteira e prometeu vingar-se daquele homem que nem mesmo era seu. Diz o povo que primeiro ela pensou em delatar o homem a sua esposa, mas logo achou fraco demais àquela vingança.

Foi então que ela teve a nojenta ideia, a mais porca possível. A mulher entendia muito bem de encanação, pois seu falecido pai trabalhara com isso, e ela, que até os vinte e tantos anos tinha comportamentos, digamos, masculinos, se interessara muito pelo o trabalho braçal do pai, de modo que adquiriu bastantes conhecimentos do assunto. Com uma destreza de verdadeiros encanadores e profissionais da área, a mulher desviou o cano do ralo do banheiro do homem para o seu chuveiro, uma operação que lhe custara três dias seguido de árduo trabalho, incluindo até mesmo a madrugada. As siamesas casas e as tubulações expostas daquele tempo também facilitaram muito aquela ideia absurda.

A mulher sabia que, como a sua esposa estava viajando e que nem toda a noite ele poderia levar uma mulher para a sua casa, visto que a vizinhança tem a língua afiada, ele se masturbaria no banheiro, afinal os homens não conseguem ficar dois dias sem dar uma gozada, principalmente quando se é novo de trinta e poucos anos como era aquele homem; aquele esperma, então, gozado com o pensamento sabe lá em quem, correria para o seu chuveiro, que na verdade era um cano grosso que espatifava no piso do banheiro, mas, naqueles dias, ela usara um balde para que aquela água imunda se alojasse e ficasse ali parada, assim seria mais fácil encontrar vestígios de esperma.

 Mas qual era a sua intenção em fazer isso?  

Pegar o esperma e filtrar em sua vagina.

A mulher engravidou e teve, apesar da nojenta gravidez, um lindo menino.

 Mas como poderia provar que de fato era dele?

Simples. Através do enorme sinal da cruz, idêntico ao do homem e no mesmo, meticulosamente no mesmo lugar que a do dele. Não houve como refuta-la sobre isso. O menino era a cara do pai, e a esposa do homem pediu o divórcio e acabou com a vida daquele adúltero. O homem quase ficou louco, não encontrava razão para aquilo. A mulher, depois de tudo aquilo, desapaixonou-se pelo o homem. Tão subitamente assim. Quando uma mulher planeja uma vingança, até o diabo tem medo.


Por Patrick Santos

A vagina animal



Aconteceu numa antiga povoação, um caso estranho, funesto, por assim dizer. Homens tiveram seus pênis decapitados por dentárias idênticas às de piranhas. Dir-se-ia a lenda que não houve sobreviventes a estes macabros ataques. Todos os homens sangraram até a morte.
Mas quem poderia estar por trás de um crime tão absurdo como este?
Diz à lenda que se tratava de uma linda mulher, cuja a inocência era ter um grande amor, imaculado e eterno, assim como toda senhorita solteira deseja ter. E, por sorte, havia encontrado este grande amor; um homem forte, atraente e educado, o sonho de toda dama da época.
Mas o amor de um homem às vezes esmaece. Desencanta-se. E então se aventura por outras curvas tentadoras.
Que decepção foi ver o seu homem, o seu príncipe encantando fazendo amor com outra mulher em um rio. O coração da mulher quebrou-se, assim como um frágil cristal. Amargurada e ofendida, a mulher invocou o Deus Dagon, o homem-peixe. O mar chacoalhou suas ondas para a beira do mar. Aquele som emitia uma voz nada ininteligível. Ouvia-se claramente: “o que queres?”. Confusa, a mulher não soube o que pedir para aquele semideus. Mas logo lhe veio à única palavra que pairava em sua mente: “Vingança”, disse ela. O deus, compreendendo a dor que refletia em seu olhar, disse: “de que forma queres te vingar?”; “castigando os adúlteros sendo uma adúltera”. A ideia mais profana veio imediatamente na cabeça do semideus, mas, antes de lhe dar tal poder, Dagon exigiu o seu corpo, o seu sexo. A moça não relutou em manter relação com o deus, então fizeram amor nas profundezas do mar.
Foi a partir de então que os ataques a pênis começaram. A mulher tinha coleção deles. De diversos tamanhos e espessuras. Seduzia os homens casados e, antes da penetração sexual, a vagina da mulher mastigava o pênis, decepava-o e jogava no fogo até o membro virar pó.

Àqueles ataques a homens adúlteros perdurou por séculos, e os homens, receosos dos ataques, pensavam duas vezes antes de trair suas esposas.

por Patrick Santos

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Um Espectro no Navio



 De repente você está parado no tempo, olhando para um vazio, que de certa forma é mais atrativo de que tudo ao seu redor. Você fita aquele espaço e, até mesmo sorri para ele. Acha-lhe belo e aprazível, em todos os seus sentidos. Mas algo lhe desperta. Uns olhos escuros, tão escuros quanto àquele vazio. Sim, eram destinados a minha pessoa. Eram realmente lindos aqueles olhos negros. Fitavam-me benevolentemente. Reiteradamente. Entre as trocas de olhares entre eu e aquele belo ser, aconteceu algo inusitado; triste fato. Um homem, aparentemente somando (conforme a sua aparência que me foi pouco perceptível por causa da distância entre nós) trinta e cinco anos de idade, acabara de sofrer um infarto e morrera ali mesmo, naquele navio, em pleno passeio. “Socorram-no, pelo o amor de Deus”, as pessoas gritavam desesperadamente.
Mas nossos olhares, no entanto, continuavam, e até mais intensos. Acredito que eles foram até pecaminosos, pois desrespeitavam aquele corpo que jazia no solo. Um aglomerado de pessoas rodeava aquela pobre alma que já estava em outro estágio da vida.
Intensos olhares; eu não me continha, nem mesmo aquele ser divino. Foi então que ergueu sua mão e, num gesto afetuoso, acenou-me. Eu a retribui, gentilmente. Mas seus olhares e gestos, outrora intensos, se modificaram de tal forma que me estranharam muito. Em seus olhos eu não via as lágrimas que ameaçavam cair. Seu semblante triste e emocionado, de certa forma me emocionou também, e foi então que ela virou-se lentamente, porém ainda me fitando, e se retirou daquela sala de jantar, daquele imenso navio.
 Segui-a. obedecendo meus instintos.
No corredor do navio, eu continuava a lhe seguir, seus passos eram lentos, mas espaçosos. Foi quando se adentrou na cabine do capitão do navio. Estranhei, pois aquele acesso era restrito. Mas não me intimidei, e então bati na porta, e foi então que o capitão veio até mim e me interrogou perguntando-me o que queria. Disse-lhe da tal garota que havia entrado em sua cabine, e este, trêmulo, disse:
- Estás a me ludibriar?
- De forma alguma, capitão. – Respondi-lhe.
Dei-lhe mais descrições da moça e ele ficava cada vez mais aturdido com o que eu lhe dissera.
Ainda desacreditado da perfeita descrição que eu lhe dera, trouxe-me uma foto, uma pequena lembrança de sua filha, e, para a minha surpresa, era justamente a garota que a qual eu seguia.
- Sim, é ela mesmo. – Respondi-lhe.
- Impossível. – Disse-me olhando com temor.
- Por que, senhor?
- Minha filha morreu há três anos e meio.
Petrifiquei-me com aquela declaração do ancião.
- Ela, no entanto, – Continuava ele – me aparecia em forma de espectro e, às vezes, nos meus sonhos. Dizia-me que só iria embora deste mundo quando o seu anjo da guarda lhe viesse buscar. Deus o enviaria, e não tardaria com aquela promessa. Com o tempo comecei a me acostumar com as suas visitas. Alegravam-me os dias.
Cada vez mais eu me interessava por o que aquele homem dizia que proseava sem titubear. 
- Senhor, – Disse eu – de que forma sua filha morreu?
- Pulou do navio, sem motivos aparentes. Sofri dia e noite, até que um dia ela me apareceu na sala de jantar, no meio do aglomerado de gente.
- Igual a mim. – Disse eu.
- Sim. – Afirmou-me ele.
- Capitão, tenho toda a certeza que a vi entrar em sua cabine; jamais brincaria com falecidos.
- Creio em você, meu jovem. Em seus olhos consigo ver lágrimas que estranhamente não cedem. Só estranho como ela lhe apareceu.
De repente alguém bateu na cabine do capitão e o chamaram para averiguar um caso. “Volto já”, disse-me ele. De uma sala, que julgo ser a cozinha da cabine do capitão, vi surgir ela, aquela linda criatura. Tão linda criatura de Deus. Se eu me apaixonei? Confesso que nunca senti nada parecido com o que senti. Ela aproximou-se de mim, e disse:
- Pensei que você nunca viria me buscar.
Arrepiei-me.
- Pois estou aqui. – Disse eu admirando-a.
Ela sorriu. Segurou a minha mão e senti uma energia tão positiva, tão solene; me senti em paz com aquele simples contato. Suavemente, começamos a flutuar. Senti meu corpo leve, assim como uma bolha de sabão. Olhávamos um ao outro e sorríamos como se nos conhecêssemos há anos. Percebi então que eu estava realmente flutuando. Sim, literalmente. Pairamos no ar. Foi quando seu pai entrou em sua cabine e nos viu naquele estado de levitação, quase encostando nossas cabeças na abóbada. O homem se persignou e nos disse: “que Deus esteja com vocês”.
- Adeus, papai. – Disse ela. E então sumimos, perdemo-nos naquelas nuvens de algodão.
Meu corpo chegou de manhã cedo em uma determinada cidade. Nem pude ver meu sepultamento. Mas de qualquer forma eu fui feliz, pois o amor me encaminhava para o céu. Amar depois da morte; sim, existe. Minha morte foi tão prematura, porém não me lembro de mais nada dela. Nem quero lembrar, talvez. Mas ainda me dói lembrar dela, quando sofri aquele infarto em pleno navio; quando orei para que aquele homem fosse abençoado. E aquele homem, de fato, era eu.


Por Patrick Santos

Sexo no Cemitério



Todo dia, após largar o seu serviço, Vicente rumava para um bar que se localizava perto de sua casa. Encontrava-se com os seus amigos e bebia até o diabo dizer chega.
Sentado em sua mesa, rodeada de amigos, Vicente enxergou uma linda mulher que bebia sozinha no balcão do bar. Não era a primeira vez que Vicente a viu ali, sozinha e visivelmente triste, já tinha lhe visto outra vez, se não se enganava parecia ser na noite passada. Achou ela tesuda demais, porém não teve coragem de ir até lá e lhe galantear. 
Naquela noite, porém, Vicente tomou coragem, assim como várias doses de conhaque, e foi até a linda moça de triste aparência para arriscar uma paquera.
- Boa noite, moça. Permita-me sentar ao seu lado? – Disse educadamente Vicente.
- Fique a vontade. – Respondeu a moça.
- Sempre lhe vejo por aqui. Moras aqui perto? – Disse Vicente.
- Sim. Bem aqui próximo. – Disse a moça.
- Nunca lhe vi antes. – Disse Vicente.
- Sou novata aqui. Faz poucos dias que cheguei. – Concluiu a moça.
- Muito prazer, meu nome é Vicente.
 - Prazer.
-Como você se chama?

- Isso importa! - Disse ela.
Vicente levantou duas vezes sua sobrancelha e disse:
- Realmente não. Você não quer ir para outro lugar?  - Perguntou ele com o coração palpitando por sexo.
- Sim.  – Disse a moça.
Segurando a mão da moça, Vicente retirou-se do bar e saiu para a rua em rumo a um motel mais próximo.
A moça estava gelada. De fato que fazia um frio intenso, mas a sua temperatura era bastante fora do normal. Vicente nem deu a mínima para isto, pois julgava que a moça estava apenas nervosa.
Chegando próximo a um cemitério, a moça fez uma proposta inesperada a Vicente. Disse-lhe que tinha uma fantasia sexual: transar dentro de um cemitério. Vicente não gostou da proposta, mas quando viu que a moça lhe fazia menção de desistir de tudo, ele aceitou prontamente.
A moça deitou-se em um túmulo e começou a se despir. Vicente vislumbrou a linda moça e ficou encantado. De fato a moça era muito atraente. Lentamente também foi se despindo. A moça já o chamava freneticamente em cima de um túmulo. “Vem me possuir, garanhão”, dizia ela. Nunca ele poderia imaginar que a moça era tão louca daquele jeito. Gritava chamando-o para que este a comesse logo. Vicente deitou-se em cima dela e é escusado dizer os detalhes daquela transa.
O clima estava bom, até que a moça pediu algo que ele jamais imaginaria que ela pedisse. Era algo doentio. A mulher pediu para que ele destampasse o túmulo com o qual eles estavam deitados, e de lá tirasse o cadáver para que eles mantivessem relação com ele.
- Você está louca? –  Redarguiu ele.
- O defunto é fresco. – Disse ela.
A eloquência da moça, bem como a sua beleza cativante, convencera Vicente que fez tudo aquilo o que ela pedira.
De fato, o corpo ainda estava em bom estado. Parecia ter sido enterrado há quatro dias. Era de uma mulher.
Nunca Vicente imaginaria se vendo a cometer tal ato. A necrofilia era algo que o próprio repudiava.
Vicente, então, fez sexo com o defunto.
De repente uma luz foi posta em sua direção. Vicente olhou para aquele clarão e viu a mulher desaparecer. Ele estava realmente ébrio. A luz era da lanterna do coveiro que viera ver o que estava acontecendo no jazigo.
A cena que o coveiro viu não lhe deixou tão admirado. O que mais lhe deixou pasmo foi ver o homem praticar sexo oral com o cadáver.
- O que você está fazendo aí, amigo? – Perguntou o coveiro.
- Nada. Apenas sexo. – Disse Vicente.
- Mas com um cadáver? – Disse o coveiro.
- Foi à moça que me instigou.  – Disse Vicente.
- Que moça, cara. Só vejo um defunto aí.
Vicente olhou para um lado, olhou para o outro e, meio atordoado sem saber onde estava, viu a foto da mulher no jazigo em que ele estava deitado, e disse:
- É essa mulher aí da foto.
-  Mas essa mulher já morreu. – Disse o coveiro.

-Impossível! Transamos agora a pouco. Ela que me trouxe até aqui.

- Não invente, seu doente. Você transou com o seu defunto.
- Ai que merda! – Disse Vicente.


por Patrick Santos 









Faminta da Noite



Seus olhos refletiam um desejo inaudito que eu jamais poderei explicar. Talvez tenha sido seu sangue fervescente que pelo faro eu achei, afinal somos dois seres completamente esdrúxulos: eu por natureza, ela por mera, ou talvez, insana predestinação. E foi aquele olhar frio, quase sem vida, assim como o meu, assim como sou, que me chamou atenção. Aproximei-me furtivamente dela, e ela nem se deu conta de que surgi quase que como um espectro em seu lado. Segurei sua mão e ela sentiu algo frio, úmido lhe apalpar. Tentou me repelir, mas quando viu meus olhos fixando-a macabramente, se fez submissa e se entregou ao seu bel prazer. Ela estava cheia da monotonia e dos mesmos rostos de sempre. Ela queria algo novo. Inovador. E achou-me.
O som estava ensurdecedor naquela boate dos anjos diabólicos. A banda tocava algo que eu jamais havia ouvido antes. A guitarra, ligada ao pedal de apenas um som de efeito metálico, berrava feito uma mãe ao ver seu filho se entalar com uma espinha de peixe. O baixo irritava até mesmo um ser em sua plena inconsciência devido estar ebriamente revestido de comprimidos e seringadas para lhe causar viagens alucinógenas. A bateria foi o ápice de minha tolerância. Batia desarticuladamente e fez-me se afastar e me desorientar. Mas bem no fundo eu estava adorando aquilo. Foi ao me afastar que eu a observei-a. Após tocar-lhe, como a pouco disse antes incisivamente, nossos opostos de súbito se atraíram. Foi muito fácil tirar-lhe daquele pseudo inferno para lhe levar ao, sem soma de dúvida, verdadeiro inferno.
Levei-a á meu habitat, lugar de lúgubre e perversa visão. Ela sentiu-se em casa. Foi se acamando e eu apenas a observando. Foi quando ela proferiu aquela frase que reverberou meus olhos rubros: “Deixe-me roxa de tanto me comer”. Não suportei aquela afronta. Parti para cima daquele corpo em chamas e ao sentir aquele fervor, deletei-me de suor e prazer. Disse-me enquanto eu a experimentava: “Você tem uma cara de maníaco psicopata. Tipo aqueles que seduzem e matam.” Fixei meus olhos em seus seios e ela continuou dizendo: “Por que você não sorri? Vou acabar acreditando que és, de fato, um psicopata.” Meus olhos se direcionavam agora para seu pescoço. Em estase, disse-lhe francamente: “Não sorrio, pois quando sorrio meus dentes se retraem e caem.” Ela sorriu euforicamente e eu a possui como jamais havia possuído outra. Finquei, então, meus afiados dentes naquele pescoço lindo e suculento. Seu sangue escorria fluindo para seus fartos e arredondados seios apetitosos. Minha língua deslizava por ela para deliciar aquele líquido que venero e suplico. Cada gota é demasiada importante, pois apenas uma pode salvar um ser indiferente como eu.
Senti o seu corpo se contorcer, foi então que peguei uma vela e lhe pinguei aquela cera quente por todo o seu corpo. Aquele ritual macabro, asseguro-lhes, foi mais fantástico do que um orgasmo. Seu corpo ficou enrijecido e, de súbito, frio como o meu.
Acordei seminu e não a vi. Quando olhei para o alto, vi-a pendurada de cabeça para baixo completamente nua. Criei-la. Ela seria a minha esposa, a rainha do mal. Dormíamos juntos em um caixão. Fazíamos amor ali mesmo, naquele claustro.
Tivemos noites maravilhosas. Porém elas foram ficando escassas. Sua presença foi se tornando fugaz a cada noite. Esqueci-me de alimenta-la. Era isso. Ela saia todas as noites para se fartar. Se eu fosse um cara mais vidrado em notícias, eu teria percebido. Começamos a trazer indivíduos que curtiam uma transa a três. Foi o nosso modo de se alimentar. Um dia era um sexo feminino, outro dia um masculino. Certo dia matei um antes mesmo de devora-lo. Senti um desgraçado ciúme por ela. Enterrei minha espada em seu pescoço que por muito pouco quase acertara a minha rainha. Desde aquele episódio, ela tornou-se indiferente comigo. Acordei com muita intuição certo dia. Minha intuição não falhara, pois me surpreendi segurando uma estaca que estava para se adentrar em meu lúgubre coração. Era ela que tentara me enfiar aquele instrumento. Puxei-a violentamente e fizemos amor á noite toda.
Ela sentia uma fome muito fora do normal. Começou a atacar perversamente inúmeras pessoas. Até mesmo as que eu muito estimava. Sua força era descomunal. Assim como a sua sensualidade. Tinha o dom de enfeitiçar qualquer um com seu corpo demasiado atraente. Seus olhos encantavam o espirito e, eroticamente, excitava até mesmo um impotente.
Muito me aprazia o seu sexo. Tinha o cheiro do mal.

O que eu não sabia, e que jamais poderia imaginar, era que aquela formosura tinha uma paixão incógnita. Ela jamais havia partilhado aquilo comigo. Pegou-me de surpresa quando eu a vi com ele em meu caixão fazendo sexo. Apesar de ser isto, eu tenho sentimentos. Meu coração é morto, mas minha alma, apesar de estar sentenciada, ainda vive e move-se em mim. Descobri, com o tempo, que aquele sujeito era o seu amor, seu esposo, quando esta ainda era viva. Voltando a traição, que eu flagrara, imediatamente enterrei uma estaca no peito daquele sujeito. Ele morreu ali mesmo, ao lado dela. Segurei a mão da minha rainha, e vivemos felizes para sempre. Literalmente.

por Patrick Santos


Espíritos Presos



São poucas as coisas que me lembro durante o tempo em que eu vivi naquela casa, pois eu tinha apenas sete anos de idade.
Tudo o que vou contar aqui são fatos reais que aconteceram há quinze anos atrás. Os relatos foram de minha família, principalmente do meu pai que era um cético perante o sobrenatural.
Chegamos naquele apartamento numa tarde linda. De princípio nós nos mudaríamos para o Ap 104, mas como o antigo morador, de nome Álvaro, pediu ao síndico para que se mudasse para o 104, alegando que no Ap 105 o sol da tarde invadira o seu quarto e deixava como um inferno, o síndico prontamente assentiu com o pedido do morador, que morava há bastante tempo naquele apartamento e que nunca causava problema nenhum e nunca havia se tornado um inadimplente.
O apartamento era lindo e, no entanto, o sol não causava tanto calor assim como aquele homem dizia.
 Para a nossa sorte, naquele dia de mudança fomos convidados pelos os moradores do segundo andar para uma festinha de aniversário. Meu pai não queria ir, mas de tanto eu e minha irmã, de oito anos, insistirmos, ele acabou cedendo.
Na festa havia um garotinho chamando o meu pai para segui-lo. Parecia estar bastante preocupado com alguma coisa. Meu pai o seguiu. Saindo da festa, meu pai seguiu aquele menino que o chamava através de acenos desarticulados. O menino corria feito um louco.
Para a surpresa do meu pai, aquele menino entrou em nosso apartamento. “Impossível!” Dizia meu pai. “Eu tranquei a porta.”
Entrando na casa, meu pai percebeu que o menino havia sumido. Procurou-o por todos os lados e não o encontrava.
De repente ouviu vozes de crianças vindas de seu quarto. Abriu a porta e percebeu que as vozes vinham do seu guarda roupa. Na verdade detrás dele. Estava a tremer de medo. Arredou o guarda roupa sorrateiramente e, com isso, as vozes pararam de falar.
“Devem ser os vizinhos”, disse. “Mas e o garoto?” Perguntou-se. “Onde ele está!”
Novamente as vozes. E agora o alarido ocupava cada compartimento da casa. Meu pai ficou branco como um algodão. Arredou novamente o guarda roupa e uma voz feminina disse o seguinte: “AJUDE-NOS”.
Meu pai caiu para trás.
Não contou nada para a minha mãe no dia seguinte. Achou que aquilo não passava de um sonho; demasiado lúcido por sinal.
Certo dia, minha mãe estava só em casa. Eu e minha irmã estávamos no colégio. Meu pai no trabalho. Sentindo-se só, ligou a Tv para relaxar um pouco, quando ouviu vozes que vinham da cozinha. Pareciam pessoas conversando. Ficou paralisada. De repente acordou da vertigem.  Entretanto, as vozes continuavam a conversar. Eram vozes ininteligíveis. Tomou coragem e foi averiguar o que estava acontecendo em sua cozinha. Chegando lá, encontrou a cozinha totalmente escura e a mesa coberta por uma toalha preta com três velas vermelhas, sete dias sete noites, acessas. Desmaiou.

Quando o meu pai chegou mais tarde, ela o contou tudo, mas este, cético, não acreditou em nenhuma palavra dela.
Á noite, novamente minha mãe se espantou. Dessa vez ouviu barulho de lousas. Parecia que alguém estava lavando elas. Foi até a cozinha e quando chegou lá, viu uma mulher com trajes de empregada doméstica lavando a sua lousa. Minha mãe fechou os olhos e deu um berro. Quando abriu os olhos, a moça havia sumido. No dia seguinte ligou para a sua mãe que lhe consolou dizendo que essas coisas são normais, pois quando alguém se apega muito a vida, e não aceita estar morto, ela sempre volta para acabar com os seus afazeres.

Na casa do nosso vizinho todos os dias escutávamos barulhos de objetos sendo quebrados. Briga de casal, dizíamos. Mas acontece que os gritos eram bem perturbadores mesmo.

Um dia meu pai chegou muito estranho em casa. Estava pálido. Nem disse bom dia a minha mãe. Entrou no banheiro e não saiu mais. Minha mãe, percebendo que ele demorava a sair, abriu o banheiro e só viu um gato preto sair de lá. Não era ninguém. Meu suposto pai havia sumido.

Numa noite, meu pai tentou se levantar para ir ao banheiro, porém não conseguia. Estava paralisado. Apenas seus olhos se moviam. Enfim percebeu que estava deitado de peito para cima. Sempre que dormia daquele jeito ele tinha pesadelos assombrosos, pois seu avô dizia que um demônio gostava de sentar na barriga de quem dormia assim; portanto era ele o causador dos pesadelos.
Ele tentava se mexer, mas não conseguia. “Será que estou sonhando?”, dizia-se. De repente ele começou a afundar em seu colchão. Ia descendo igual a uma areia movediça. Quando ele fechou os olhos, tudo voltou ao normal. Mas ao tentar firmar seus pés no chão, não conseguiu. Olhou para o chão e enxergou uma espécie de neblina, e nela havia várias mãos tentando lhe puxar para baixo. Provavelmente para o submundo.
Acordou no dia seguinte sem saber que se de fato aquilo tinha acontecido.

Na noite seguinte, aconteceu outro caso temeroso com meu pai:

Meu pai estava dormindo de bruços, para evitar pesadelos. De repente sentiu a cama se abaixar um pouco. Parecia que um leve peso havia se posto na cama. Logo começou a ouvir um suspiro de criança. De princípio, meu pai achava que era eu vindo se deitar em sua cama. Mas não era.
Era uma noite tempestuosa.
Meu pai disse bem baixo:
- Volte para a cama, filho. São apenas relâmpagos. Logo, logo vai passar.
Ele não obteve resposta, e de repente a criança começou a chorar.
- Volte para a cama e tente dormir, meu filho! – Disse novamente.
Sem respostas.
Levantou-se e olhou para aquela criança, mas não viu seu rosto, pois a escuridão predominava o quarto. Viu que o menino chorava sentado bem na beira da sua cama.
- Quê foi filho? Volte para a cama. Logo passam esses malditos raios. – Disse ele em um tom solene.
A criança, então, soltou um grito assustador bem na hora em que um trovão iluminou todo o seu quarto. Quando viu o rosto daquela criança, por intermédio do raio dado, percebeu que era a mesma criança que o seguiu naquele primeiro dia em que fizemos a nossa mudança. Novamente a escuridão predominou o quarto, mas logo veio outro raio, e quando este foi dado, à criança já não estava mais sentada em sua cama. Havia sumido.
Á umas três semanas após a nossa chegada naquela casa, o vizinho, que havia trocado o seu Ap com a gente, cometeu um suicídio em seu Ap. Ficamos chocados com aquilo. Lembro-me vagamente disto. A família do homem, composta por sua esposa e um casal de filhos, estava viajando há quase um mês; logo saberão que não era bem isso.
Imagine você acordar de madrugada com a sua casa tremendo! Isso aconteceu com a gente. Meus pais foram cambaleando para o meu quarto. “O quê está acontecendo meu Deus?”, berrava a minha mãe. De repente vieram sons de pratos, xícaras e outros objetos se quebrando ao chão. Meus pais foram para a sala, com eu e minha irmã, todos nós de mãos dadas. Sentimos mãos demasiadas frias nos apalpar. A casa tremia literalmente, assim como um terremoto. Gritos de dor, desespero e agonia também estavam mesclados neste episódio aterrorizador. Choramos três dias, eu e minha mana, sem parar. Meu pai resolveu se mudar daquela casa imediatamente, porém o síndico nos instigou mais cinco dias, pois alguns documentos, que estranhamente foram extraviados, e que eram de extrema relevância, eram precisos para a nossa mudança.
Minha mãe viu, numa certa noite, uma mulher surgir ao lado dela durante o seu sono. Aquela cena foi muito forte para ela. De difícil superação.
Um dia, o piso da sala começou a ceder. Meu pai começou a puxar uma viga de madeira que já estava um pouco inclinada. Tirou uma, duas, primeiramente por curiosidade. Tirou outra e percebeu que alguma coisa estava errada. Sentiu um odor repugnante mesclado com um perfume bastante forte e mais algumas bolinhas de naftalinas. Depois viu um livro grosso com folhas amareladas que constatando, percebeu que era a Bíblia sagrada. O que fazia debaixo de um piso removível? Talvez fosse uma forma de abençoar a casa. Fanáticos religiosos usam cada meio para se livrarem dos maus espíritos. Pegou a bíblia com desconfiança e começou a folhear. Uma pagina estava marcada com um marcador de livro. Era no livro de Thiago e estava sublinhados em ênfase o capitulo 1 e versículo 15.
Assim está escrito:
Então a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.
Tiago 1:15

Leu o texto e disse um tímido “Amém”. Puxando a quarta viga de madeira, viu um tecido que enrolava um objeto volumoso. Tentou puxar, mas o objeto era demasiado pesado. Tirou a quinta viga de madeira para facilitar a remoção do estranho objeto. O odor era bastante desagradável. Meu pai chamou minha mãe para ajuda-lo na remoção daquele fedorento entulho. Ambos estavam curiosos e aflitos. Puxaram com bastante força. O cheiro enjoativo fez minha mãe vomitar inesperadamente. Piorou quando viu que a sua mão estava infestada de tapurus, aquele inseto que se encontra facilmente em coisas podres. Na mão do meu pai também se encontravam essas larvas asquerosas.
Quando a minha mãe foi lavar as suas mãos com o álcool, ouviu o berro do meu pai dizendo:
- LIGA PRA POLÍCIA IMEDIATAMENTE!
Assustada, minha mãe correu para a sala para ver o que estava acontecendo.
 Chegando na sala, viu meu pai consternado e de joelhos no chão. Aquele pacote com um odor insuportável eram os corpos da família do homem que cometeu o suicídio. Jazia ali os filhos e a esposa do covarde senhor Álvaro, antigo morador de nossa casa. Matou-os por saber que sua esposa o traía com o seu melhor amigo.

por Patrick Santos




O Piso que Cedeu



- Que desvairada! O plano não era apenas enforca-la! Agora há vestígios de sangue por toda a casa.
- Acalme-se! Vamos limpar tudo isso imediatamente e embrulhar este presunto. – Disse a mulher.
Sons veem da escada do apartamento.
Toc, toc,... Batida na porta.
- Merda! Quem será? – Diz a mulher.
- Vou averiguar.  – Diz o homem.
Ao olhar pelo o olho mágico, o homem só consegue ver uma pinta negra.
- Porra! Alguém está tampando o olho mágico com o dedo. – Diz o homem.
- Pergunte quem é e despeça-o.
- Diga! O que deseja! – Diz o homem com a porta semiaberta atada por uma correntezinha.
- SURPRESA! – Dizem aproximadamente sete ou oito pessoas.
O homem solta um funesto sorriso com sua testa ensopada de suor, deixa cair um bilhete soberbamente premiado, e diz: “Só um momentinho”.
- Esqueci literalmente que hoje é meu aniversário. Familiares meu e de Rose estão aí fora para festejar essa merda. E fazia anos que eu não recebia uma festa surpresa. Puta que pariu; justo hoje!
- Rápido! Não á tempo de se lamentar.  – Diz a mulher, afoita. – Vamos despeja-la neste piso removível. Rápido!
Removem o piso. O homem segura as mãos e a mulher as pernas da morta e jogam o corpo, inerte, num espaço demasiado apertado.
- Vamos, Jonas! Abra a porta. – Grita um dos visitantes.
- Já vou indo. Só um momento.
- Droga! O espaço é muito pequeno. A cabeça vai ficar para fora. E agora, meu Deus!
- Vamos degola-la.  – Diz a mulher, de forma, alguma sugerindo aquilo.
- Você está realmente louca. Não vou fazer isso.
A mulher, então, vai até a gaveta, onde se encontra os talheres, e de lá tira uma enorme faca e enfia bem no âmago do pescoço da morta, e começa a degola-la friamente. A impávida moça era observada com espanto pelo o marido da morta.
- O que fizemos! – Dizia ele.
Ao terminar de degolar a mulher, a amante de Jonas pega a cabeça e a despeja na lata de lixo, que se localiza na cozinha, e rapidamente limpam o sangue com um alvejante, e dentro de dois minutos a cena do crime está incrivelmente remediada.
A amante de Jonas se escondeu em um compartimento da casa e Jonas, enfim, dirigiu-se a porta para recepcionar os visitantes.
- Boa noite, gente! Mãe, tudo bem? E você irmã? Oi sogra, oi sogro. Tudo bem cunhada? Oi sobrinho! E quem é este rapaz aí com você, cunhada?
- É meu noivo. Noivamos hoje, né amor!
- Sim. – Disse o homem com um sorriso benévolo.  – Prazer, Ruy.
- Prazer, Jonas. Queiram sentar, por favor.
- Onde posso pôr a comida que trouxemos, filho? – Perguntou a sua mãe.
- Ah, dei-me aqui, por favor. Deixe que eu ponha na mesa. – Respondeu Jonas.
- Onde está Rose, Jonas? – Perguntou a sogra deste.
- Bom, ela saiu para comprar algo. Vai ver é meu presente.
Todos sorriram consideravelmente. Jonas chorava por dentro.
- É realmente uma surpresa enorme. Eu jamais adivinharia que vocês viessem.  – Disse Jonas.
- Ainda bem que Rose sabe guardar segredo. – Disse a sua cunhada.
- Ora; então ela sabia?
- Sim, claro.
- Mas que cheiro forte de alvejante é este, filho? – Pergunta a mãe de Jonas.
Jonas hesita por alguns segundos e responde:
- Bom. Vomitei há uma meia hora atrás. O almoço do meu trabalho não me fez muito bem. Ainda estou um pouco pálido, como vocês podem ver.
- E parece que aqui teve uma luta corporal! – Diz o seu sogro reparando na bagunça da casa.
- Há, há, há. É verdade, Jonas. Você sempre foi um homem sistemático. Muito me estranha essa bagunça. – Diz o seu pai.
Jonas agora soa como uma panela de pressão.
- É o cansaço. – Responde Jonas de imediato.
- Em quê você trabalha, Ruy? – Perguntou Jonas ao noivo de sua cunhada com o intuito de desviar o assunto.
- Sou detetive. – Respondeu.
Jonas custou a engolir a saliva que o viera. Parecia uma enorme avalanche.
“Por que fui mudar de assunto!”. Monologou.
- Que ótimo! – Respondeu ele.
- Será que Rose vai demorar? – Perguntou a sua sogra.
- Logo, logo ela chega. – Respondeu Jonas.
Ruy mantinha uma expressão circunspecta. Pouco falava. Apenas observava.
- Oras, vamos pôr uma música, beber e dançar um pouco. – Sugeriu a irmã de Jonas.
Todos gostaram da ideia e uma música foi posta. A bebida foi servida pela a irmã de Jonas que servia os visitantes com uma bandeja. De repente foi até a cozinha para jogar um lixo fora. Quando ela ia pisando no pedal da lixeira para suspender a sua tampa e jogar o lixo, esta foi interceptada grosseiramente por Jonas que a empurrou violentamente.
- Por que fizeste isso, Jonas? – Questionou sua irmã.
- Desculpe irmã. A verdade é que não me sinto bem, mesmo. Deixe que eu jogue este lixo aí. Não se preocupe.
Os visitantes, visivelmente embriagados, dançavam com passos pesados sob o piso de Jonas. O piso começava a oscilar.
Jonas, enfim, se apercebeu que seu sobrinho havia sumido da sala de estar e da cozinha. “Que capeta”, disse. “Onde ele deve estar?”.
O garoto de dois anos havia ido, justamente, no esconderijo improvisado da amante de Jonas: no quarto. Quando a amante viu o garoto, correu para o único banheiro da casa que se localizava de frente ao quarto de Jonas.
- Onde fica o banheiro? – Perguntou Ruy a sua noiva.
- Ah, você pode ir direto naquele corredor que você vai parar lá. Fica de frente para um quarto.
- Obrigado!
Jonas procurava o garoto pelos três quartos da casa. Encontrou-o justamente no seu. Temeu por achar que o garoto houvesse encontrado sua amante. “Ela deve estar bem escondida”, pensou ele puxando a criança pela a sua orelha. De repente viu Ruy no corredor dirigindo-se ao banheiro.
- O... banheiro! – Sorriu Ruy.
- Pois não. – Sorriu forçadamente Jonas.
Quando Ruy abriu a porta do banheiro e ligou a luz, viu a amante de Jonas toda encolhida sentada ao lado da privada.
- Mas o quê você faz aqui, moça? – Perguntou ele.
- Bom...bom...eu sou doméstica da casa. Senti-me mal e vim ao banheiro, porém minha dor ainda não passou.
- Bom, desculpe-me. Vou me retirar.
- Não, fique a vontade, amigo. – Disse ela.
Ruy sabia, e agora tinha certeza, de que havia alguma coisa errada na casa.
Ao passar pela a cozinha, sobre os olhares de Jonas que estava na sala, Ruy avistou no chão várias gotas de sangue que vinham desde a sala até a cozinha, perto da lixeira. Ruy seguiu aquelas gotas sorrateiramente, e Jonas esbugalhava os seus olhos olhando-o. Ruy viu então, ao lado da lixeira, uma faca molhada de sangue. “Que estranho. Muito estranho.” Jonas sentiu o seu coração querer lhe sair pela a boca. Ruy virou-se e voltou para a sala de estar.
- Acabei de vê sua secretária no banheiro, Jonas. Acho que ela está passando mal.
- Secretária? – Perguntou juntos os pais e os sogros de Jonas.
- Mas você nunca teve uma secretária, filho! – Disse a mãe de Jonas.
- Bom, eu e Rose não estamos com muito tempo para cuidar da casa. Por isso contratamo-la.
- Apresente ela a nós, filho. – Disse a mãe de Jonas.
- Sim, sim. Vou chama-la.
- Este piso estar para ceder! – Disse a sogra de Jonas.
- Sim, está oscilando muito. – Acrescentou sua irmã.
- Mudando de assunto, - Disse o seu sogro – vocês sabiam que o ganhador da loteria de hoje é de nossa pequena cidade?
- Nossa! Não sabíamos. – Disse alguns.
- Hum, será que foi a Rose que ganhou e resolveu fugir do país? – Disse a cunhada de Jonas.
Todos sorriram, beberam e dançavam em cima de um cadáver sumariamente degolado.
- Aqui está a moça. – Disse Jonas apresentando a sua amante aos demais. – Ela se chama Ana.
Ruy, instintivamente, percebeu uma gotícula de sangue sobre a gola da camisa da moça.
- Prazer, Ana. – Cumprimentou os convidados.
- isto não é veste de doméstica. – Disse a cunhada de Jonas no ouvido de Ruy.
- Deverás. – Respondeu este.
Mais uma vez, por um incrível instinto que só os detetives possuem, Ruy percebeu um papel jogado bem próximo da poltrona em que estava sentado. Simulando atar seu cadarço, Ruy ajuntou aquele folheto. Quando vislumbrou do que se tratava, jogou-se consternado na costa da poltrona.
Ruy começou a ligar os fatos: Primeiro a demora para Jonas recepciona-los, segundo o seu, e de sua suposta empregada, mal estar e vômitos, terceiro a gota de sangue na roupa da mulher e na faca, encontrada jogado perto da lixeira, e quarto, e crucial condenação, o bilhete premiado da loteria. Sim, a sua noiva havia ironicamente acertado: Jonas matou a sua esposa para poder ficar com o premio de 50 milhões da loteria.
Agora era Ruy que pingava horrores.
Os dançantes dançavam insaciavelmente. De repente uma viga do piso se moveu. Apenas Ruy, Jonas e Ana perceberam. Ruy contemplou um dedo, com a unha pintada de vermelho. Estremeceu, assim como os criminosos. Jonas, disfarçadamente chutou aquele dedo de volta para debaixo da viga. Ruy se fazia de desentendido. Jonas pedia para os visitantes cessarem de dançar, porém em vão. O piso estava para desabar completamente. Desta vez vieram três dedos da defunta para fora. A criança, o sobrinho de Jonas havia novamente sumido. Os dançantes sorriam e jogavam bebidas no chão. De repente o pai de Jonas se escorregou e caiu  no chão, e justamente na hora o piso desabou e Ruy sacou sua arma com uma destreza impecável dando voz de prisão para os dois. Todos os presentes ficaram petrificados com a cena. Ruy, então, tirou as vigas e pôde se ver a morta sem a sua cabeça.
- Meu Deus! – Gritaram todos abismados com aquela cena.
- E a sua cabeça? – Perguntou Ruy – Onde você jogou?
De repente a criança chega até a sala, segurando a cabeça da mulher, sua tia, e a joga bem no meio da sala, fazendo escorrer sangue sobre os calçados dos convidados e dos criminosos.

por Patrick Santos


Fantasma na Igreja



Não quero de forma alguma difamar um lugar santo. Bem longe de mim está em cometer tal ato. Mas o que vou contar aqui foi um fato que aconteceu no interior do meu Pará.
Essa historia narra um caso de um homem que, deverás, não era um homem de boas condutas, mas, apesar de ser um ativo pecador, frequentava a igreja todo o santo dia. Não sei eu se de fato ele iria pedir perdão a Deus, só sei que ele nunca se confessava ao padre.
Muitas pessoas o repeliam, pois conheciam os seus atos pecaminosos. Ele se sentia só e levemente atingido. Ouvíamos cochichos de herege e de outros adjetivos demoníacos. Acho eu que ele não tinha família. Não sei se essa o tinha abandonado.
A sua morte repercute até hoje em nosso interior. Alguns diziam que ele devia a Deus e o mundo, outros diziam que a sua morte foi uma encomenda de satã. Porém eu, cara sensato como sempre fui, tenho a certeza de que aquilo foi apenas uma desgraça da vida.
Ele foi encontrado enforcado em seu apartamento no dia de Ramos. Um aglomerado de pessoas cercaram a sua casa naquele dia. Só assim o infeliz recebia visita. Porém, no seu enterro ninguém compareceu.
Dois anos depois da sua morte, o homem foi visto em uma foto tirada dentro da igreja. Ele se encontrava sentado com os olhos fixos ao púlpito. Aparentava estar em paz com seu espirito. A foto foi divulgada em um jornal da cidade e, consequentemente, a repercussão foi a nível nacional.
Algumas pessoas diziam que era impossível ser aquele homem, pois um herege não é bem vindo na casa do senhor. Mas o fato, de que era realmente o homem, se concretizou em um vídeo.
No vídeo, também repercutido em várias emissoras do Brasil, o homem rodeava a igreja toda lentamente e por fim subia ao púlpito. De lá olhava os adoradores com um olhar de desdém e pena. O que intrigou o câmera que filmava o vídeo na hora, foi que na hora da sua gravação o espirito do homem lhe era imperceptível.

Até hoje se você quiser ver o seu espirito por lá você encontra. Parece bem claro que o espirito foi bem vindo ao local. E até hoje também não consigo concluir uma dúvida: que se de fato aquela igreja era uma corja ou que só cabe ao nosso grande Deus nos julgar.

por Patrick Santos

A Desova



Imagine você, em sua casa, aproximadamente uma e meia da manhã, um temporal infernal cai e a chuva castiga a sua janela fazendo um barulho até confortador. Você está prestes a pegar no sono e de repente... alguém dá uma porrada violenta em sua porta. Você se espanta atordoado e diz: QUE PORRA É ESSA!
Bom minha gente. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Rapidamente desci as escadas da minha casa de madeira para averiguar que porra era aquela. Ao olhar da minha janela toda quebrada, não consegui ver ninguém, pois a escuridão predominava. Fui lentamente até a porta e abri-la bem devagarinho. A chuva estava muito violenta e um frio desgraçado assoprou bem no meu rosto. Senti minha boca entortar. Pensei até que eu iria sofrer um derrame. Vi então, na minha porta, um pedaço de perna manca bem grossa. Foi com ela que o filho da mãe havia batido em minha porta.
Puto pra caralho, fui até lá fora, no meio da chuva mesmo, e gritei:  FAZ ISSO DENOVO SEU FILHO DA PUTA! SE TÚ FOR MACHO DE DOIS COLHOES, FAZ!
Voltei pra minha cama muito puto e voltei a dormir.
Ao olhar para o pirata, meu cachorro, vi ele se contorcer todo. Parecia que estava sofrendo uma convulsão. Uma espuma branca, bem pastosa, saia de sua boca. Fiquei muito preocupado e joguei uma água gelada nele. Ele voltou ao normal e começou a latir tão forte como eu nunca havia visto antes. Um latido grosso, muito parecido quando ele latia para um estranho. De repente ele olhou para o teto de minha casa e deu um sussurro de medo. Agora ele se tremia todo. Parecia estar com medo de alguma coisa. Olhei para o teto e não vi absolutamente nada.  “Passa daí, seu passa fome”, disse eu, e voltei a dormir tranquilamente.
Eu sempre fui um cara eremita. Minha misantropia me afastava de qualquer cidadela. Eu adorava morar no meio do mato. Eu nunca tive vizinhos. Para mim essas porras são tudo uns bandos de filhos da puta. Se preocupam tanto com a sua vida e não olham nunca para os seus rabos melados de merda. Pra você ter uma ideia, a casa mais próxima da minha ficava a quase dez quilômetros.
Depois daquela noite, as coisas no meu barraco mudaram muito. Meu sossego foi se afastando de mim, bem como a minha mulher que trocou a vida do campo para ir morar com um veado granfino de merda.
Na noite seguinte, exatamente uma da madrugada, ouvi uns arranhões vindos de minha porta. “O que será isso?”, perguntei-me. Averiguando minha sobriedade e lucidez, cheguei à conclusão lógica que era o pirata que estava fora de casa e estava querendo se adentrar. Calcei minha sandália, me embrulhei com uma toalha e desci as escadas para coloca-lo para dentro.
Ao abrir a porta, o pirata entrou e se sacudiu todo fazendo me espirrar lama e mato. “Seu sacana”, disse. “Vai pra dentro”. Os olhos do pirata estavam fumegando e um rosnado temeroso saiu de sua boca. “Ai, caralho! Tu tá doido, porra!”, disse furiosamente. “Passa pra dentro e para de dar uma de doido”, disse eu. O cão rosnou mais alto ainda. Olhei pra ele e disse: “Não vale a pena. Deixa pra lá”. Subi as escadas e voltei para a minha cama.
Quase ao pegar no sono, novamente ouvi arranhões vindos de minha porta. Como isso? Eu tinha acabado de abrir a porta para o cachorro! Intrigado e puto, desci para ver o que estava se passando lá embaixo. Chamei pelo o pirata e ele não me atendeu. Balancei seu recipiente de comida e ele não veio. “É, ele realmente não está aqui. Mas isso é impossível!”. Chegando perto da porta, abria-a bem devagarinho. O pirata arranhava a porta desesperadamente para entrar. Abri a porta com tudo e ele entrou abanando o rabo e soluçando baixinho. Parecia estar com medo de algo. Na verdade nós dois estávamos com medo. E aquele cachorro a quem eu abri a porta por primeiro? Quem era? Era o pirata, eu tinha certeza. O quê está acontecendo comigo? Era impossível ele sair. Não teria como.
Quando eu iria subir para deitar-me em minha cama, vi um homem parado no meio da escada com os olhos fumegando de ira. Meu coração palpitou tão forte que parecia que iria sofrer uma pane. Olhei para aquele homem com os olhos arregalados de medo. Pus as mãos em meus olhos e quando os tirei só vi o vulto do homem subindo a escada. “E agora meu Deus. O que é que eu faço?”. Fui lentamente a minha estante para pegar a minha escopeta e de repente ouvi algo se quebrando lá encima. Parecia som de vidro. Sim, parecia da minha janela. Fui subindo lentamente as escadas com o cu que não passava nem um alfinete. Chegando ao ocaso da escada, um silêncio predominou aquele local. Até os insetos pararam de cochichar. Estava tudo em silêncio. Completamente. E a escuridão não dava lugar a nenhuma emissão de luz. O homem parecia ter sumido. Sim. Pulou pela a janela. Ao olhar minha janela, certifiquei-me de que ela estava intacta. Impossível! Eu estava enlouquecendo. Não pode ser! Peguei minha candeia e rodei por todo o alto de minha casa. Nada! O estranho homem havia sumido.
Fui ao meu banheiro para lavar o rosto e ao tirar a toalha de meus olhos, vi dois homens; um a minha direita e outro a minha esquerda; todos sorrindo com seus dentes defeituosos e seus olhos vermelhos como a de um coelho albino. Meus pelos se arrepiaram todos. Meu coração, agora sim, havia sofrido uma pane. Quase que caio de tanto tremer, pois minhas pernas oscilavam incessantemente. Ao olhar para trás, para vê-los, vi apenas meu cachorro me olhando com a cara de fome.
Aquela noite eu não consegui dormir. Parecia que tinha alguém me vigiando á noite toda. Pela primeira vez eu orei pra Deus. Cochilei quase às cinco da manhã e acordei com o canto do meu galo velho rouco. Ainda estava escuro. Ao olhar de minha janela, vi dois homens com enxadas na mão. Sim, eles me viram. Apontaram para mim a enxada que seguravam e em seguida jogaram uma pedra em minha direção. Agora sim havia quebrado a minha vidraça. “Tô fodido mesmo”, disse. Tirei meu rosto para não espirrar nenhum estilhaço de vidro em meus olhos. Ao olhar da janela, eles haviam sumido. “Ai meu caralho”, disse eu tremendo de medo.
Mas alguma coisa me dizia que não eram os mesmos homens que eu vi em minha casa.
Ao clarear o dia, peguei a minha caminhonete e fui até a cidadezinha para saber se tinha alguma novidade. Sentei em uma lanchonete fuleira e vi vários velhos conversando sobre um assunto que me chamou muita atenção: era de um assassinato de dois homens que haviam participado da morte de um padre defensor de causas humanas. “Dois homens?”, perguntei-me. “Por acaso já acharam os corpos desses dois vagabundos?”, disse eu para aqueles velhos. “Ainda não seu intrometido”, disse-me um deles. “Valeu”, respondi.
Ao chegar em meu barraco, surpreendentemente não vi o pirata vir me recepcionar. Era a primeira vez que vi isso acontecer. Chamei-o por toda a parte da casa, porém ele não me atendia. Já estava bastante preocupado, afinal aquele passa fome era o meu único companheiro. Finalmente ele me apareceu com um pedaço imenso de osso na boca. “De onde tu tirou  isso, rapá?”, perguntei-lhe. Ele me abanou o rabo e lentamente foi me levando até onde havia encontrado aquele osso. Era no meu milharal. Chegando até o local, conclui que aquela ossada era dos dois homens mortos que me apareceram naquela inesquecível noite em que eu não dormi a noite toda. Foram enterrados bem no meu milharal. Que desova.

 por Patrick Santos




A Viela



Era uma noite chuvosa e fria. Os pingos da chuva fustigavam meu guarda chuva com uma violência arrebatadora. Eu estava ensopado e louco para chegar em casa.
Foi quando eu decidi pegar um atalho por uma viela que eu nunca havia pisado antes. Confesso que sentia medo de passar por ela. Muitos me diziam coisas absurdas sobre aquela ruazinha. Mas, em agonizante vontade de chegar em casa e me aquecer na lareira, naquele dia eu ignorei qualquer fato que me disseram a seu respeito.
Peguei-a sem relutância.
Segui em passos acelerados, porém trôpegos, pois o frio intenso quase congelara o meu pé esquerdo. Eu seguia e olhava para trás. Os ratos se locomoviam hereticamente para lá e para cá. Pareciam assustados com alguma coisa.
Foi quando eu vi uma velha, suja e imunda, sentada no lado de uma lata de lixo comendo algo que acabara de apanhar.
Passei rente a ela, porém nem sequer a olhei, pois não queria ser incomodado por uma indigente, ainda mais com a chuva que me infortunava. Com uma voz metálica, ela me pediu um pedaço de pão e alguma coisa quente. Não a respondi e segui no meu trajeto. Pediu-me o paletó para lhe aquecer. Neguei-a. pediu-me dinheiro. Ignorei-la.
Enfim ela me deixou em paz.
A viela parecia não ter fim.
Agora, em minha direção, vinha um homem jovem com uma aparência rústica e ignorante. Perguntou o meu nome e se eu tinha filhos. Não respondi. Permaneci calado assim como ficara com a velha mendiga.
Prestes a chegar ao ocaso da viela, uma criança, possuindo suas vestes rasgadas, pediu-me solenemente meu guarda chuva para proteger sua mãe que se encontrava enferma e deitada sobre um jornal e um papelão. Disse-lhe para encher o saco de outro, pois eu já me encontrava esgotado.
No dia seguinte, acordei meio atordoado e sem saber onde estava. Recuperando minha energia e consciência, cheguei à conclusão que estava em um hospital. Rapidamente coloquei minha mão no bolso e certifiquei-me que meus pertences ainda estavam no mesmo lugar.
Ao surgir uma enfermeira, perguntei: qual a razão de eu estar aqu?i Ela olhou-me firmemente nos olhos e alegou:
- Na noite passada, você estava com princípio de hipotermia, porém; uma senhora, um homem, que lhe trouxe nas mãos, uma criança, que pedia ajuda, pois a sua mãe estava com tuberculose, lhes trouxeram até aqui e lhe estimaram melhoras.

 por Patrick Santos


O Terrível Taxidermista (do conto A feição do Diabo)



Depoimento do subalterno do conde da taxidermia ( pseudônimo dado ao assassino)

23 de novembro de 1876
“Cheguei naquela mansão em uma segunda feira bem cedo. De fato, aquilo estava mais para um palácio e eu teria que cuidar de tudo aquilo sozinho, pois o conde não contrataria mais ninguém além de mim. Afirmou-me que me pagaria muito bem, bastaria eu fazer o meu serviço bem feito e não me meter nos negócios dele que tudo ficaria bem.
Ignoro o modo de sobrevivência do conde. Ele passava horas na sua sala que ficava no ultimo andar da casa. Era-me proibido entrar ali. Ele mesmo se dispunha a limpar o lugar.
Todas as tardes, prestes a escurecer, eu ouvia um som alto de musica vindo da sala do meu patrão. O que me intrigava era que sempre tocava a mesma música: a segunda sinfonia de Beethoven.
Eu estava ciente dos assassinatos, mas nunca poderia imaginar que era o meu patrão.
A cidade passava por um pânico nunca visto por lá. Os lobos estavam furiosos e famintos, e já se começava a dizer que um homem, idêntico a um lobo, rodeava a cidade toda a procura de  vítimas. Todos diziam ser um lobisomem. E algumas pessoas diziam ser o meu patrão.
Ele adorava se fantasiar de filantropo. Realizava os maiores bailes da cidade. Frequentava teatros e grandes óperas. Era sempre visto usando uma longa capa vermelha e uma cartola preta.
No dia seguinte ao baile, ele perguntava a mim se eu havia reparado no casaco de pele de fulano, ciclano e beltrano. Eu o olhava confuso e dizia não. Ele respondia tudo bem, e voltava para a sua sala secreta. Muito me intrigava aquelas perguntas do meu patrão. Parece que aquelas pessoas, com roupas luxuosas,  incomodavam o meu patrão. Ele os olhava com uma ira que jamais poderei decifrar a vocês.
Várias pessoas desaparecidas. Começava a crescer o número.
  Os caçadores, que foram contratados para matar os lobos, sumiram, assim como as duas filhas do barão Visconde que adoravam um casaco de pele e um empalhador de animais, pessoa com a qual o meu patrão tinha muita afinidade.
Num funesto dia, em que ele abriu a sua casa para realizar um grande baile, ele sentou-se no banco do piano e começou a tocar uma música de Beethoven, a sonata ao luar. Ele tocava piano magistralmente. De repente, quando a música exigia umas batidas mais fortes em suas teclas, meu patrão começou a se contorcer todo. Seu pescoço se entortou e suas veias pareciam que iam se dilatar. Seus olhos ficaram vermelhos como a de um lobo. As pessoas diziam: vejam! Ele está se transformando. Todos se afastaram com muito medo. Quando a música acabou, meu patrão estalou seus dedos e disse: “Muito obrigado”. Os presentes sorriram e bateram muita palma a ele.
Um dia, durante um grande baile a máscaras que ele realizaria em sua mansão, ele me deu oito horas de folga para passear um pouco em qualquer lugar que eu quisesse. Eu fui visitar meus filhos, pois fazia meses que eu não os via.
Quando voltei, havia cinco objetos pendurados na parede sobre um pano preto. Os convidados foram chegando. Várias pessoas se aglomeraram assustadas no salão. O conde, o anfitrião da festa havia sumido. A segunda sinfonia de Beethoven tocava como música de fundo.
De repente os panos foram descobertos e uma voz, que ninguém sabia dizer de onde vinha, e que estava mais para um poema, disse o seguinte: Vejam essas vidas em jogo. Esses meros mortais. O mundo de vocês não poupa nem a paz. Vejo a beleza deles no corpo de alguém, de alguém sem escrúpulos que não ama ninguém. O nosso verde caindo. Nativos no chão. Minguando um lar e entrando em extinção.
Todos se olharam com muito medo e chocados com o que viram, pois os corpos dos dois caçadores, as duas filhas do conde Visconde, que realmente adoravam um casaco de pele, e o empalhador de animais, foram todos cruelmente vítimas da taxidermia humana.

O conde havia realmente sumido”.

Por Patrick Santos