De repente você está
parado no tempo, olhando para um vazio, que de certa forma é mais atrativo de que tudo ao seu
redor. Você fita aquele espaço e, até mesmo sorri para ele. Acha-lhe belo e
aprazível, em todos os seus sentidos. Mas algo lhe desperta. Uns olhos escuros,
tão escuros quanto àquele vazio. Sim, eram destinados a minha pessoa. Eram
realmente lindos aqueles olhos negros. Fitavam-me benevolentemente. Reiteradamente.
Entre as trocas de olhares entre eu e aquele belo ser, aconteceu algo
inusitado; triste fato. Um homem, aparentemente somando (conforme a sua
aparência que me foi pouco perceptível por causa da distância entre nós) trinta
e cinco anos de idade, acabara de sofrer um infarto e morrera ali mesmo, naquele
navio, em pleno passeio. “Socorram-no, pelo o amor de Deus”, as pessoas gritavam
desesperadamente.
Mas nossos olhares, no entanto, continuavam, e até mais
intensos. Acredito que eles foram até pecaminosos, pois desrespeitavam aquele
corpo que jazia no solo. Um aglomerado de pessoas rodeava aquela pobre alma que
já estava em outro estágio da vida.
Intensos olhares; eu não me continha, nem mesmo aquele ser
divino. Foi então que ergueu sua mão e, num gesto afetuoso, acenou-me. Eu a
retribui, gentilmente. Mas seus olhares e gestos, outrora intensos, se
modificaram de tal forma que me estranharam muito. Em seus olhos eu não via as
lágrimas que ameaçavam cair. Seu semblante triste e emocionado, de certa forma
me emocionou também, e foi então que ela virou-se lentamente, porém ainda me
fitando, e se retirou daquela sala de jantar, daquele imenso navio.
Segui-a. obedecendo
meus instintos.
No corredor do navio, eu continuava a lhe seguir, seus
passos eram lentos, mas espaçosos. Foi quando se adentrou na cabine do capitão
do navio. Estranhei, pois aquele acesso era restrito. Mas não me intimidei, e
então bati na porta, e foi então que o capitão veio até mim e me interrogou
perguntando-me o que queria. Disse-lhe da tal garota que havia entrado em sua
cabine, e este, trêmulo, disse:
- Estás a me ludibriar?
- De forma alguma, capitão. – Respondi-lhe.
Dei-lhe mais descrições da moça e ele ficava cada vez mais
aturdido com o que eu lhe dissera.
Ainda desacreditado da perfeita descrição que eu lhe dera, trouxe-me
uma foto, uma pequena lembrança de sua filha, e, para a minha surpresa, era
justamente a garota que a qual eu seguia.
- Sim, é ela mesmo. – Respondi-lhe.
- Impossível. – Disse-me olhando com temor.
- Por que, senhor?
- Minha filha morreu há três anos e meio.
Petrifiquei-me com aquela declaração do ancião.
- Ela, no entanto, – Continuava ele – me aparecia em forma
de espectro e, às vezes, nos meus sonhos. Dizia-me que só iria embora deste
mundo quando o seu anjo da guarda lhe viesse buscar. Deus o enviaria, e não
tardaria com aquela promessa. Com o tempo comecei a me acostumar com as suas
visitas. Alegravam-me os dias.
Cada vez mais eu me interessava por o que aquele homem dizia
que proseava sem titubear.
- Senhor, – Disse eu – de que forma sua filha morreu?
- Pulou do navio, sem motivos aparentes. Sofri dia e noite,
até que um dia ela me apareceu na sala de jantar, no meio do aglomerado de
gente.
- Igual a mim. – Disse eu.
- Sim. – Afirmou-me ele.
- Capitão, tenho toda a certeza que a vi entrar em sua
cabine; jamais brincaria com falecidos.
- Creio em você, meu jovem. Em seus olhos consigo ver
lágrimas que estranhamente não cedem. Só estranho como ela lhe apareceu.
De repente alguém bateu na cabine do capitão e o chamaram
para averiguar um caso. “Volto já”, disse-me ele. De uma sala, que julgo ser a
cozinha da cabine do capitão, vi surgir ela, aquela linda criatura. Tão linda
criatura de Deus. Se eu me apaixonei? Confesso que nunca senti nada parecido com
o que senti. Ela aproximou-se de mim, e disse:
- Pensei que você nunca viria me buscar.
Arrepiei-me.
- Pois estou aqui. – Disse eu admirando-a.
Ela sorriu. Segurou a minha mão e senti uma energia tão
positiva, tão solene; me senti em paz com aquele simples contato. Suavemente,
começamos a flutuar. Senti meu corpo leve, assim como uma bolha de sabão.
Olhávamos um ao outro e sorríamos como se nos conhecêssemos há anos. Percebi
então que eu estava realmente flutuando. Sim, literalmente. Pairamos no ar. Foi
quando seu pai entrou em sua cabine e nos viu naquele estado de levitação, quase
encostando nossas cabeças na abóbada. O homem se persignou e nos disse: “que
Deus esteja com vocês”.
- Adeus, papai. – Disse ela. E então sumimos, perdemo-nos
naquelas nuvens de algodão.
Meu corpo chegou de manhã cedo em uma determinada cidade.
Nem pude ver meu sepultamento. Mas de qualquer forma eu fui feliz, pois o amor
me encaminhava para o céu. Amar depois da morte; sim, existe. Minha morte foi
tão prematura, porém não me lembro de mais nada dela. Nem quero lembrar,
talvez. Mas ainda me dói lembrar dela, quando sofri aquele infarto em pleno
navio; quando orei para que aquele homem fosse abençoado. E aquele homem, de
fato, era eu.
Por Patrick Santos
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