terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Um Espectro no Navio



 De repente você está parado no tempo, olhando para um vazio, que de certa forma é mais atrativo de que tudo ao seu redor. Você fita aquele espaço e, até mesmo sorri para ele. Acha-lhe belo e aprazível, em todos os seus sentidos. Mas algo lhe desperta. Uns olhos escuros, tão escuros quanto àquele vazio. Sim, eram destinados a minha pessoa. Eram realmente lindos aqueles olhos negros. Fitavam-me benevolentemente. Reiteradamente. Entre as trocas de olhares entre eu e aquele belo ser, aconteceu algo inusitado; triste fato. Um homem, aparentemente somando (conforme a sua aparência que me foi pouco perceptível por causa da distância entre nós) trinta e cinco anos de idade, acabara de sofrer um infarto e morrera ali mesmo, naquele navio, em pleno passeio. “Socorram-no, pelo o amor de Deus”, as pessoas gritavam desesperadamente.
Mas nossos olhares, no entanto, continuavam, e até mais intensos. Acredito que eles foram até pecaminosos, pois desrespeitavam aquele corpo que jazia no solo. Um aglomerado de pessoas rodeava aquela pobre alma que já estava em outro estágio da vida.
Intensos olhares; eu não me continha, nem mesmo aquele ser divino. Foi então que ergueu sua mão e, num gesto afetuoso, acenou-me. Eu a retribui, gentilmente. Mas seus olhares e gestos, outrora intensos, se modificaram de tal forma que me estranharam muito. Em seus olhos eu não via as lágrimas que ameaçavam cair. Seu semblante triste e emocionado, de certa forma me emocionou também, e foi então que ela virou-se lentamente, porém ainda me fitando, e se retirou daquela sala de jantar, daquele imenso navio.
 Segui-a. obedecendo meus instintos.
No corredor do navio, eu continuava a lhe seguir, seus passos eram lentos, mas espaçosos. Foi quando se adentrou na cabine do capitão do navio. Estranhei, pois aquele acesso era restrito. Mas não me intimidei, e então bati na porta, e foi então que o capitão veio até mim e me interrogou perguntando-me o que queria. Disse-lhe da tal garota que havia entrado em sua cabine, e este, trêmulo, disse:
- Estás a me ludibriar?
- De forma alguma, capitão. – Respondi-lhe.
Dei-lhe mais descrições da moça e ele ficava cada vez mais aturdido com o que eu lhe dissera.
Ainda desacreditado da perfeita descrição que eu lhe dera, trouxe-me uma foto, uma pequena lembrança de sua filha, e, para a minha surpresa, era justamente a garota que a qual eu seguia.
- Sim, é ela mesmo. – Respondi-lhe.
- Impossível. – Disse-me olhando com temor.
- Por que, senhor?
- Minha filha morreu há três anos e meio.
Petrifiquei-me com aquela declaração do ancião.
- Ela, no entanto, – Continuava ele – me aparecia em forma de espectro e, às vezes, nos meus sonhos. Dizia-me que só iria embora deste mundo quando o seu anjo da guarda lhe viesse buscar. Deus o enviaria, e não tardaria com aquela promessa. Com o tempo comecei a me acostumar com as suas visitas. Alegravam-me os dias.
Cada vez mais eu me interessava por o que aquele homem dizia que proseava sem titubear. 
- Senhor, – Disse eu – de que forma sua filha morreu?
- Pulou do navio, sem motivos aparentes. Sofri dia e noite, até que um dia ela me apareceu na sala de jantar, no meio do aglomerado de gente.
- Igual a mim. – Disse eu.
- Sim. – Afirmou-me ele.
- Capitão, tenho toda a certeza que a vi entrar em sua cabine; jamais brincaria com falecidos.
- Creio em você, meu jovem. Em seus olhos consigo ver lágrimas que estranhamente não cedem. Só estranho como ela lhe apareceu.
De repente alguém bateu na cabine do capitão e o chamaram para averiguar um caso. “Volto já”, disse-me ele. De uma sala, que julgo ser a cozinha da cabine do capitão, vi surgir ela, aquela linda criatura. Tão linda criatura de Deus. Se eu me apaixonei? Confesso que nunca senti nada parecido com o que senti. Ela aproximou-se de mim, e disse:
- Pensei que você nunca viria me buscar.
Arrepiei-me.
- Pois estou aqui. – Disse eu admirando-a.
Ela sorriu. Segurou a minha mão e senti uma energia tão positiva, tão solene; me senti em paz com aquele simples contato. Suavemente, começamos a flutuar. Senti meu corpo leve, assim como uma bolha de sabão. Olhávamos um ao outro e sorríamos como se nos conhecêssemos há anos. Percebi então que eu estava realmente flutuando. Sim, literalmente. Pairamos no ar. Foi quando seu pai entrou em sua cabine e nos viu naquele estado de levitação, quase encostando nossas cabeças na abóbada. O homem se persignou e nos disse: “que Deus esteja com vocês”.
- Adeus, papai. – Disse ela. E então sumimos, perdemo-nos naquelas nuvens de algodão.
Meu corpo chegou de manhã cedo em uma determinada cidade. Nem pude ver meu sepultamento. Mas de qualquer forma eu fui feliz, pois o amor me encaminhava para o céu. Amar depois da morte; sim, existe. Minha morte foi tão prematura, porém não me lembro de mais nada dela. Nem quero lembrar, talvez. Mas ainda me dói lembrar dela, quando sofri aquele infarto em pleno navio; quando orei para que aquele homem fosse abençoado. E aquele homem, de fato, era eu.


Por Patrick Santos

Nenhum comentário:

Postar um comentário